Como fazer uma noite romântica em casa

Odeio gatos

2020.07.27 04:02 Enigma_Machine1 Odeio gatos

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que, por mais que eu odeie/não me sinta confortável perto de gatos, eu jamais prejudicaria eles fisicamente, mesmo tendo muito vontade (erroneamente, claro - talvez vocês "entendam com o meu relato). Não é disso que o desabafo se trata.
Esse é um relato meio longo.
Eu nunca convivi com gatos. Sempre cresci com cachorros em casa, tive um que me acompanhou desde a época da escola até terminar a faculdade. Amei muito ele, hoje tenho outro, um resgatado, que amo muito. Sempre amei cães, passei mais anos da minha vida com cães do que sem.
Por ter rinite alérgia, eu nunca cogitei ter um gato. E, antes de conviver com eles, eu não sabia dessa minha apatia gigante por eles. Esteticamente, até acho alguns fofos etc, mas também nada demais, longe dessa "loucura" que algumas pessoas sentem por eles.
Passei a ter um convívio maior com gatos através de uma das minhas primeiras namoradas. Ela tinha 3 gatos. Eu era bem novo, ela morava em uma kitnet, então 3 gatos já era bastante coisa. No geral eles até que eram comportados, mas lembro que acabaram estragando algumas coisas minhas (mochilas principalmente) e isso me irritava muito. Sem contar a rinite, que me deixava ainda mais irritado, mas na época eu pensava que era por estar um cômodo de uns 25m2 no máximo, sem ventilação adequada.
Eu namorei pouco menos de 3 anos com ela e foi durante esse período que a minha irritação com gatos aumentou. Uma das gatas SEMPRE dava o jeito de fugir do apartamento dela pro corredor e pro jardim que tinha no prédio. Minha ex me ligava e eu tinha que ir correndo ajudar ela a pegar a gata que, eu não entendo, morria de medo quando saía da casa (pra quê sair então, né, porra?), então era foda pegar ela, se enfiava em cada canto filha da puta de alcançar.
Os outros gatos eram um pouco mais de boa, mas a quantidade de pelos que deixavam pelo apartamento dela era um absurdo. Nem passando aspirador 2x por dia parecia que fazia alguma diferença. Minha ex não ligava, mas me incomodava ver eles estragando todos os móveis que ela tinha. Era o box da cama todo arrebentado (mesmo eles tendo arranhador), não podia ter uma única peça de decoração sobre uma mesa ou estante pois sempre derrubavam e quebravam, tinha que deixar a tampa da privada sempre abaixada pois eles davam um jeito de subir nela e não conseguir sair (burros). Até na cozinha, eu queria preparar algo pra comer e tinha pelo em tudo, mesmo se a gente limpasse.
Eu não diria que minha ex dava liberdade total para os gatos, na verdade ela sempre foi pé no chão com isso, várias vezes se irritava com a encheção de saco deles também (pra dormir principalmente - como era uma kitnet, não dava pra deixar em um cômodo separado, então era 3 da manhã e vinham encher o saco pedindo ração sendo que a porra do pote tava 90% cheio).
Enfim, terminei com ela mas o ranço pelos gatos ficou. Depois disso só tive namoradas que tinha cachorros ou então nenhum pet. Avancemos alguns anos para os dias de hoje.
Estou namorando há quase dois anos, já tenho planos de morar junto com a minha namorada, nos amamos muito e nos damos super bem. Além da parte romântica, temos um companheirismo e uma amizade muito boa, sempre apoiamos um o outro. Claro que já tivemos brigas, eu tenho os meus problemas e ela os dela, mas nada que não conseguimos superar na base da conversa. O único problema é que ela tem 6 gatos.
Recentemente, passei uns 20 dias quarentenado no apartamento dela. Está longe de ser uma kitnet, mas pra 6 gatos eu considero um lugar pequeno.
Eu tive, é claro, todos os problemas com minha rinite, mesmo tomando remédios de 8 em 8 horas pra aliviar. Se os três gatos dessa minha ex davam trabalho, o dobro deles é muito, muito pior pra mim.
Gente, nesses 20 dias eu vi cada coisa que me irritou pra além do limite. Obviamente que não demonstrei isso, mesmo ela tendo plena noção que pra mim bicho é bicho, humano é humano (eu não mimo meus bichos, trato meu cachorro super bem, mas longe de mimar com coisas que acho frescura, tipo dar banho dia sim dia não, fazer comer só T bone australiano ao molho de ervas finas, essas merdas - ele come ração, petiscos e de vez em quando frutas, só). Eu estava na casa dela, regras dela. Só que por amar tanto gatos, e mimar eles, na minha opinião, ela dá carta branca pra eles fazerem o que quiserem, sem consequência nenhuma (nunca dá bronca, não impõe limites).
Somente durante esse período: um dos gatos resolveu afiar as unhas no meu tênis novo (só não estragou pois percebi logo nos primeiros dias e depois escondi - mas encheram eles de pelos em algumas horas, eu não sei como); um outro escolheu a mochila velha da minha namorada pra vomitar bem em cima, cheia de coisa dentro. E não foi pouco. Outro gato afiou as unhas na mochila novinha dela e já arranhou uma parte dela. Tinha literalmente acabado de chegar, ela só colocou no sofá por um instante pra arrumar outras coisas e foram lá estragar.Um outro gato você não pode nem se mexer que ele se assusta, sai correndo e derruba tudo o que vê pela frente.
Eu levei meu notebook pra poder trabalhar. Deixava ele guardado quando não usava, claro, mas enquanto trabalhava, faziam questão de ficar se esfregando nele, enchendo de pelo, queriam subir na porra do teclado toda hora, tiraram ele da tomada umas 3x enquanto carregava e um dia desligaram ele no meio de um trabalho (eu estava distraído e deixei o note uns minutos de lado).
De noite era outro pesadelo. Obviamente eu não deixava nem conseguiria dormir com a porta da suíte aberta, com os gatos circulando, pois a minha rinite simplesmente me mataria. Mas é só fechar a porra da porta que começam a raspar aquela merda. Era a madrugada inteira assim, sem contar aquele miado irritante pra caralho, incessante. Puta que pariu, eu juro que me dava vontade de abrir a porta e dar um chutaço no gato no calor do momento. Claro que não fiz isso, mas a vontade realmente existiu. Pior que nem assim acho que adiantaria. E sim, já tentamos de tudo. Aqueles produtos que supostamente repelem os gatos com cheiros ruins, arranhador, tudo - só não tentei adestrar pois não moro lá e, tirando a exceção da pandemia, eu só fico no apto dela aos finais de semana, ou então ela fica no meu, enão meu convívio com os gatos nunca passou de umas 48h, o que era suportável e não exigiria adestramento. Sem contar que acho que nunca vi na vida um gato que obedece o dono.
De manhã era sempre a mesma merda. Algum gato sempre deixava um vômito de presente em algum lugar da casa. No sofá, na cozinha, em cima da mesa. Parece que escolhem sempre o pior lugar possível pra isso.
Nem preciso falar como são os móveis da casa, não? Zero decoração pois derrubam tudo. Sofás arrebentados. Toda hora pegavam coisa do varal e derrubavam. Mesma coisa com toalhas nos boxes dos banheiros. Eu tinha que me preocupar com meu note toda hora, as vezes queria só pegar algo na cozinha e tinha que esconder ele só pra não pegarem.
"Pote de comida está semi-cheio, tendo ração pra caralho? Vou derrubar ele e espalhar ração pela casa pq quero ver ele cheio sempre. A caixinha de areia tem UM cocô? Vou ficar miando o dia inteiro até alguém limpar isso, pra depois eu sair andando e não fazer as minhas necessidades. Quer ir tomar banho? Vou entrar no banheiro com você, mas no mesmo segundo que você ligar o chuveiro, vou ficar enchendo o saco pra sair. Quer dormir? Vou ficar miando na porra da porta. Quer almoçar? Vou subir na mesa e ficar te batendo com a pata pra me dar comida, pra quando você oferecer, recusar, sair da mesa, voltar em 2min e pedir comida de novo. Abriu o armário pra pegar algo? Vou entrar aqui sem você ver, deixar que feche a porta, depois vou ficar miando e, quando perceber que ninguém vai me ajudar, vou começar a ficar com medo e tirar todas as roupas do cabide. Me pegou no colo pq tô faznendo merda? Vou te arranhar e morder pra caralho (unhas cortadas, pelo menos isso). Tá concentrado vendo TV/jogando/mexendo no pc? Foda-se, vou ficar na frente da tela e se me tirar eu entro na frente de novo. Tá de boas na cama/sofá? Vou pular em cima de você do nada ou te usar como apoio pra pular em alguma outra coisa, foda-se se te assustar."
E acho que o que mais irrita é que, nem mesmo com a minha namorada, eles parecem ligar. O máximo de afeto que eles dão é sentar no seu colo, e mesmo assim tenho as minhas dúvidas se isso é uma demonstração de afeto mesmo.
Eu não sei se é o número de gatos que me deixa puto, ou se eu suportaria se fosse apenas um. Mas na real, eu não consigo gostar desses bichos. Pra mim são seres filhas da puta, egoístas, burros (não aprendem/não querem aprender nada no sentido de adestramento), nem um pouco carinhosos, estragam absolutamente tudo o que você coloca pela frente, ou seja, você vive em função deles e não tem nada em troca, pelo contrário, só despesas. Na minha opinião, viver com gatos é viver em uma prisão onde você precisa satisfazer a necessidade deles 24h por dia.
A minha única tática que funcionou durante esses dias foi a seguinte: spray d'água e espírito de porco. Se eu via algum deles fazendo merda, já corria com o spray e borrifava na cara deles. Isso me dava uns minutos de sossego, pois eles se assustavam e ficavam num canto sem encher o saco. Tem dois gatos que eram os mais folgados (80% do que comentei foi obra só deles). O que eu fiz? Enchi mais o saco deles do que eles o meu. Pegava eles no colo a cada 2 min - coisa que eles odeiam - e ficava um tempo com eles assim, até começarem a miar que estavam irritados. Eu soltava, esperava eles se aconchegarem e pegava eles de novo. No final desses 20 dias, era suficiente eles me verem pra saírem do meu caminho. Se faziam merda, eu simplesmente aparecia na frente deles e eles saiam correndo. Fiquei satisfeito pois sei que consegui controlar um pouco eles sem violência nenhuma (o que é algo deplorável e eu jamais faria, mesmo o meu ódio por eles "pedindo" isso - eu não teria coragem).
Eu só penso que, a bem da verdade, nem isso seria o suficiente pra mim a longo prazo. Eu tive que entrar em um estado de alerta 24h por dia pra borrifar o spray/encher o saco deles e eu não conseguiria viver assim por muito tempo. Meu asco por gatos é tão grande que é só ouvir algum miado que já fico irritado.
Eu imagino que a maioria aqui vai falar que não é bem assim, que nem todo gato é assim. Pode até ser, mas todos os que conheci são esses infernos na terra. Todo amigo meu que tem gato tem alguma história do tipo. De quebrar coisas caras, de machucar pessoas, sem contar que gatos são extremamente nocivos ao meio ambiente, o que eles matam de pássaros e outros animais não é brincadeira.
Sei que cães também podem fazer coisas assim, mas cara, nem mesmo o cachorro mais "destruidor" que tive chegou nesse nível. O máximo que ele fazia era mijar em lugar errado e latir quando eu ia comer.
Enfim, fica aqui o meu desabafo. Deve estar meio desconexo pois escrevi no calor do momento, conforme ia lembrando das merdas que eles fizeram. Me sinto meio peixe fora d'água postando em um site que idolatra gatos, o reddit, mas está aí.
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2020.07.08 19:34 YatoToshiro ​Fate/Gensokyo #15 Waver Velvet



Fate/Zero - Fate/Grand Order - Lord El-Melloi II Sei no Jikenbo
Fate Grand Order Waver Velver (Caster) O nome verdadeiro de Caster é Zhuge Kongming, também conhecido como Zhuge Liang, era um político de destaque na era dos Três Reinos da China. Ele era amplamente conhecido como estrategista militar; foi relatado que era principalmente devido a suas habilidades que o estado mais fraco e menor de Shu foi capaz de resistir ao exército Wei muito maior por um bom tempo. Na morte, Kongming ainda venceu Zhongda.
Devido às "circunstâncias extremamente peculiares" das Grandes Ordens, Lorde El-Melloi II foi forçado a se tornar um receptáculo de seu espírito para facilitar uma convocação bem-sucedida. O próprio Senhor El-Melloi II não possui os meios ou a história para se tornar um Espírito Heróico. No processo, o Mestre Estrategista analisou quem seria o melhor responsável. Kongming julgou que não havia necessidade de se colocar em primeiro plano, já que ele já tinha um agente competente, então o papel coube a Lord El-Melloi II, que já estava familiarizado com a era moderna. ___________________________________________________________________________________________________________ Outras Curiosidades Lord El Melloi II Waver sobrevive à Quarta Guerra do Santo Graal e se torna Lord El-Melloi II.
Antes dos eventos do caso da Separação do Castelo de Adra, Lord El-Melloi II encontra Gray e a leva como sua aprendiz.
Fate/Stay Night
Embora Lord El-Melloi II não apareça em Stay Night, ele é notado por ter um grande impacto dez anos após o final da Quinta Guerra do Santo Graal. Ele chega em Fuyuki e, junto com Rin como chefe do clã Tohsaka, decide desmontar completamente o Grande Graal. Eles são contra os membros da Associação dos Magos que desejam recuperá-lo, levando a um grande tumulto da mesma magnitude que a Guerra do Graal. Seu lado finalmente é vitorioso, e o Grande Graal é completamente desmantelado, marcando a conclusão das Guerras do Santo Graal de Fuyuki.
Na adaptação de Ufotable do cenário Unlimited Blade Works, Lord El-Melloi II é visto conversando com Shirou Emiya no epílogo. Lord El-Melloi II questiona por que Shirou foi à Torre do Relógio para estudar magecraft. Shirou respondeu que aprendeu muitas coisas enquanto freqüentava a Torre do Relógio e quer dedicar sua vida a se tornar um Herói da Justiça. El-Melloi II rejeita essa noção como idiota, mas não sem mérito, passando a observar que o sonho de Shirou é muito grande para a Torre do Relógio conter
Fate/Apocrypha O mundo de Apocrypha não teve uma Quarta Guerra do Santo Graal em Fuyuki, então Waver havia participado de uma guerra de subespécies do Santo Graal em todo o mundo, com Rider como seu servo, contra Kayneth. Ele ganhou o título de Lord El-Melloi II da mesma maneira.
Lord El-Melloi II, juntamente com Rocco Belfaban e Bram Nuada-Re Sophia-Ri discutiram sobre a recente operação fracassada contra a Yggdmillennia em Trifas. Com os Yggdmillennia anunciando que eles possuíam o Grande Graal, a Associação dos Magos respondeu e enviou cinquenta magos especializados 'caçadores'. No entanto, tudo foi arruinado por Lancer of Black, que aniquilou quarenta e nove magos. Com o último mago, ajustou o Grande Graal para convocar Servos adicionais. Quando Rocco pediu a opinião de Lord El-Melloi II, ele sugeriu alterar a abordagem deles para um contra-ataque. Lord El-Melloi II acredita que a vitória pode ser bem-sucedida se eles reunirem sete Mestres. El-Melloi II sugeriu a contratação de profissionais de fora e a Torre do Relógio deve fornecer pelo menos um ou dois magos, pois a Guerra do Santo Graal está em uma escala totalmente diferente. Os três homens são as pessoas que supervisionam a seleção de Mestres para a Grande Guerra do Santo Graal. Ele é encarregado de recrutar talentos freelancers em potencial na Belfaban.
Lord El-Melloi II, Rocco e Bram discutem sobre a situação da Grande Guerra do Santo Graal. Eles não ouviram falar da facção Vermelha, acreditavam que Shirou Kotomine, da igreja sagrada, matou cinco mestres da Associação e ele roubou o Grande Graal. Eles tomaram uma decisão, a Associação de Magos permanecerá como espectadora e observará o resultado. Lord El-Melloi II retorna ao seu escritório e ele retira o catalisador de Iskandar, relembrando seu vínculo com Iskandar. Enquanto isso, Reines El-Melloi Archisorte já estava na sala sentado na cadeira e tomando uma xícara de chá casualmente. Flat Escardos estava escutando toda a conversa deixando El-Melloi II pálido. Ele pune Flat, dando-lhe mais lição de casa.
Após a Grande Guerra do Santo Graal, Caules Forvedge Yggdmillennia freqüenta as aulas na Torre do Relógio. No entanto, um dia, Caules mudou de classe com uma única frase de Lord El-Melloi II, que lhe disse: "Por que você está estudando esse tipo de magia que não combina com você? Seu talento é muito mais adequado a isso, você sabe? ", e antes que ele percebesse, ele estava cercado por colegas de classe que eram perigosos em termos de talento e personalidade.
Fate/Accel Zero Order Lord El-Melloi II foi ferido por Lancelot e Zouken Matou. Waver, Ritsuka e Irisviel se retiraram para as cavernas menores e verificaram a condição de Lord El-Melloi II. Lorde El-Melloi II ficou gravemente ferido e passou o poder do Zhuge Kongming para Waver. Zhuge Kongming considerou Waver digno e Waver se torna um pseudo-servo
Fate/Stranger Fake Lord El-Melloi II decide jogar o videogame Night Wars do Império Britânico, acreditando erroneamente que foi um jogo sobre cavaleiros. Ele ainda joga e anota seus pensamentos sobre o jogo, como de costume. Isso o leva a uma chance de ganhar uma réplica da faca Jack the Ripper com uma bainha, mas o brinquedo trivial é rapidamente perdido de sua mente. Mais tarde, ele ganha o prêmio e, como muitas das outras mercadorias que ganha inadvertidamente, ele é enviado à Torre do Relógio com vários outros pacotes.
Mais tarde, ele é o primeiro a notar a estranheza que ocorre nos Estados Unidos devido a irregularidades nas linhas ley e através de informações vazadas por Faldeus. Ele o conecta ao acontecimento de outra Guerra do Santo Graal, resultando em Rohngall e Faldeus sendo enviados para investigar. Depois que um de seus alunos mais problemáticos, Flat Escardos, escuta o resultado da investigação, Flat pede que ele o ajude a participar. El-Melloi agarra furiosamente o rosto do aluno com raiva, mas ele fica rapidamente chocado em silêncio pelo método que costumava escutar. Embora Flat seja um prodígio, ele não possui inteligência para utilizar adequadamente seus talentos e, embora as habilidades de ensino de El-Melloi lhe permitissem avançar mais do que qualquer outro, ele ainda não conseguiu se formar. Isso deixou El-Melloi com sentimentos confusos em não deixá-lo partir, embora ele normalmente odeie deixar estudantes despreparados para o mundo.
Ele tenta fazer com que Flat entenda a verdadeira natureza da guerra, ultrapassando sua raiva e alcançando uma forma de iluminação ascética. Ele tenta argumentar que Flat não é adequado para a batalha, mas suas palavras não fazem nada para assustá-lo. Ele é incapaz de usar a lógica com Flat e eventualmente o nega, embora a idéia de Flat de fazer amizade com os outros Servos o lembre de Rider. Ele começa a pensar em emprestar o fragmento da capa de Rider, caso Flat retorne novamente, mas o erro de Flat com a faca de brinquedo Jack, o Estripador, sem se lembrar dela ou verificando sua importância, faz com que ele pense que Flat desistiu de participar. Isso faz com que ele escolha dar a ele e reforçar seu mal-entendido. Ele retorna ao seu quarto, relembra a capa de Rider e acredita que a situação com Flat será resolvida.
De volta a Londres, Rohngall e seu aluno não identificado decidiram se encontrar com Lord El-Melloi II e pedir sua opinião sobre a Guerra do Falso Santo Graal. Lord El-Melloi II continua sua aula. Quando Lord El-Melloi II descobre com Rohngall que um aluno dele, que Lord El-Melloi II inicialmente acreditava ser Flat Escardos, estava participando da Guerra do Falso Santo Graal, Lord El-Melloi II entrou em colapso na plataforma de palestras. Gray o leva para a enfermaria.
Em sua segunda reunião com Rohngall, Lord El-Melloi II percebeu que havia chegado à conclusão errada quando Rohngall mencionou que um de seus alunos foi para a América, que o senhor inicialmente acreditava que Rohngall estava se referindo a Flat, mas depois descobriu-se que Rohngall estava se referindo a Ayaka Sajyou. Isso mais tarde fez com que um intrigado lorde El-Melloi II chamasse o verdadeiro Ayaka, que ele descobriu que estava na Romênia. Depois de confirmar a localização real de seu aluno, Lord El-Melloi II começa a refletir sobre a aparência que existe nos Estados Unidos.
Fate/kaleid liner PRISMA ☆ ILLYA Lord El-Melloi II é o tutor de Rin e Luvia em Fate / kaleid liner PRISMA ☆ ILLYA, ele estava relatando a situação a Kischur Zelretch Schweinorg. Ele ficou com raiva quando descobriu que o dano estimado era de 2 milhões de libras. Ele é notado como perturbado ao lidar com suas violentas discussões até que Kischur interveio. Ele e Kischur ordenam que Rin e Luvia recuperem os cartões de classe da cidade de Fuyuki.
Quando Rin e Luvia coletaram com sucesso todos os cartões de aula, Rin entrou em contato com El-Melloi II e Kischur em Londres. Eles elogiam seus esforços em coletar as cartas e a estabilidade das linhas ley de Fuyuki. No entanto, eles ordenaram que Rin e Luvia ficassem em Fuyuki por um ano e aprendessem o bom senso, pois o Japão valoriza a cooperação e a harmonia. Eles declararam que as duas meninas precisam alterar suas personalidades para serem estudantes de Zelretch.
Bonus:
The Outsiders’ Performance Waver Velvet, Rider {Zero} Taiga Fujimura {Stay Night}
Na história paralela do CD especial de drama, Taiga Fujimura, quando adulta, conta a Saber como ela foi inspirada a se tornar professora de inglês quando encontrou Waver e Rider na quarta Guerra do Graal. Ela estava procurando pelo ladrão que invadiu a loja de sua amiga Otoko Hotaruzuka e roubou seu melhor barril de vinho. Ela encontra Waver e Rider durante a noite depois de cair do telhado. Rider se torna um tradutor para Taiga e Waver, como Waver não aprendeu japonês antes de vir para o Japão, e Taiga explicou a Waver e Rider que ela perseguia o ladrão até ele voar.
Taiga imediatamente pulou na água fria para salvar o cachorro, acreditando que Waver e Rider também ajudariam. Como Waver e Rider ajudaram Taiga a sair da água, Waver questionou por que Taiga é tão persistente em ajudar as pessoas. Taiga respondeu que acredita na bondade dos outros. Waver acha isso engraçado, embora Rider diga algo completamente diferente que deixou Waver em desordem: Rider afirma que queria que Waver tivesse uma experiência romântica. Taiga perseguiu um ladrão de roupas íntimas, arrastando Rider e Waver para ajudá-la. Depois que entregaram o ladrão de roupas íntimas à polícia, eles ajudaram a reunir o filhote ao dono.
Waver perguntou a Taiga se ela ajudou os outros, ela não tem nenhum problema. Taiga afirma que está preocupada com seu amor, escola e futuro. Waver e Rider sugeriram que ela é adequada para ensinar e orientar aqueles que buscam conhecimento. Waver sugeriu que eles se separassem e voltassem para casa, mas Taiga quer ir atrás do ladrão de barris de vinho. Waver e Rider explicaram que procurar o criminoso à noite na cidade de Fuyuki está ficando mais perigoso. Taiga tentou se apresentar aos dois, mas Waver hipnotiza Taiga para voltar para casa por sua própria segurança. Rider pensou em roubar mais barris de vinho do mercado para Taiga, mas Waver o impediu de criar mais problemas, Waver tinha um plano que poderia ajudá-la. Taiga diz que uma pessoa anônima enviou uma dúzia de barris de vinho tinto de alta classe de Londres para fora da casa de sua amiga.
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2020.06.15 04:52 altovaliriano Shae (Parte 3)

Uma prostituta aprende a ver o homem, não seu traje, caso contrário acaba morta numa viela.
(ACOK, Tyrion X)
Martin começa a trajetória de Tyrion em A Tormenta de Espadas já estabelecendo o destino de Shae. Tywin e Tyrion estão discutindo sobre a sucessão de Rochedo Casterly quando entram no assunto sobre Alayaya, Tysha e Shae. Curiosamente a pergunta parte do próprio Tywin:
E aquela seguidora de acampamentos no Ramo Verde?
Que importa? – perguntou, sem querer nem mesmo proferir o nome de Shae em sua presença.
Não importa. Não mais do que me importa que elas vivam ou morram.
(ASOS, Tyrion I)
Como sabemos pelo último capítulo, Tywin se importa, sim. Shae aparece no julgamento testemunhando contra Tyrion e falando de estar com ele desde Ramo Verde, um detalhe que dificilmente escaparia a Tywin. Além disso, nesta primeira conversa, o pai de Tyrion completa com uma sentença interessante:
E não tenha ilusões: esta foi a última vez que tolerei que trouxesse vergonha à Casa Lannister. Acabaram-se as putas. A próxima que encontrar em sua cama, vou enforcar.
(ASOS, Tyrion I)
E interessante que Tywin tenha ameado enforcar Shae se a encontra-se na cama de Tyrion, pois, como o verbete sobre Shae na Wiki Gelo e Fogo sinaliza, Tyrion fez exatamente isso com Shae quando a encontra na cama do pai em seu último capítulo do livro.
A primeira vez que vimos Shae foi em um encontro no quarto de Varys, à pedido (e insistência) de Tyrion. O anão havia determinado que usaria este encontro para dar um fim na relação com Shae, em decorrência das ameaças do pai, especialmente depois que Tywin citou explicitamente a “seguidora de acampamentos no Ramo Verde” logo no capítulo anterior.
O encontro parece ser um encontro típico entre os dois, exceto que há nas duas partes desejos ocultos. Tyrion quer tirar Shae da corte e Shae deseja exatamente o contrário. Quando Tyrion aborda o assunto de maneira direta, a garota troca imediatamente de assunto, procurando massagear o ego do anão:
Shae – disse –, querida, esta tem de ser a última vez que ficamos juntos. O perigo é grande demais. Se o senhor meu pai encontrá-la...
Gosto da sua cicatriz. – A moça percorreu-a com um dedo. – Faz com que pareça muito feroz e forte. [...] O senhor nunca será feio aos meus olhos. – Ela beijou a escara que cobria os restos destroçados do seu nariz.
(ASOS, Tyrion II)
Shae insiste em não dar ouvidos a Tyrion durante toda a conversa, se limitando a tentar manipulá-lo a deixar ficar na capital. Toda aquela compaixão pelo novo ferimento adquirido de Tyrion não contém qualquer coerência, porque a garota continua tão inescrupulosa e insensível quanto era em A Fúria dos Reis. Sua maior preocupação ainda são bens materiais e sua falta de empatia por Lollys Stokeworth ainda é gritante:
[…] O senhor vai me devolver agora as joias e as sedas? Perguntei a Varys se ele podia me dá-las quando você foi ferido na batalha, mas ele não quis. Que teria acontecido com elas se tivesse morrido? [...]
Posso ir ao banquete de casamento do rei? A Lollys não quer ir. Disse-lhe que ninguém deverá estuprá-la na sala do trono do rei, mas ela é tão burra.
(ASOS, Tyrion II)
Entretanto, nem tudo é repetição nessas frases arrogantes de Shae. No meio de tudo, há uma pequeno trecho de diálogo de importância futura. Quando Tyrion tenta fazer com que a prostituta compreenda o perigo que Tywin oferece à vida dela, a garota apenas responde “Ele não me assusta”.
Esta simples sentença revela que GRRM estava sutilmente costurando elementos nesta primeira conversa que seriam trazidos de volta novamente na última cena de Tyrion e Shae juntos. Quando a garota o vê nos aposentos do pai, ela se assusta e começa a disparar justificativas. Entre estas justificativas, ela justamente se contradiz dizendo “Por favor. Seu pai assusta-me tanto” (ASOS, Tyrion XI).
Naquele primeiro diálogo, Shae sabia que Tyrion havia perdido seu cargo e, com isso, até mesmo sua permanência como aia de Lollys dependia inteiramente de ela manter seu disfarce. Àquela altura, o anão não tinha mais poderes de lhe arranjar uma nova colocação para ela, e por essa razão a garota sabia que tinha que tentar extrair de Tyrion o máximo que conseguisse.
Com isto em mente, fica claro que GRRM faz da cobrança de promessas antigas uma metáfora visual para Shae tentando segurar Tyrion via dominação sexual. Segundo o próprio Tyrion (ASOS, Tyrion VII), seu pênis era o orgão responsável por fazê-lo agir tolamente frente a manipulação da garota. E é justamente por aí que Shae o está segurando na cena, literalmente:
Não quero sair. O senhor me prometeu que eu voltaria a me mudar para uma mansão depois da batalha. – A boceta dela deu-lhe um pequeno apertão, e ele começou a enrijecer de novo, dentro dela. – Um Lannister sempre paga as suas dívidas, você disse.
(ASOS, Tyrion II)
Ao perceber que não vai conseguir nada por esta via, Shae passa a falar sobre o casamento de Joffrey e elabora um plano para que Tyrion a leve consigo, em troca de favores sexuais durante a festa. Aqui a garota não está mais se valendo da dominância, mas tentando persuadir o anão. Por isso, Shae passa a afagar o órgão sexual ao invés de prendê-lo:
– […] Eu encontraria um lugar em algum canto escuro abaixo do sal, mas sempre que se levantasse para ir à latrina, eu poderia escapulir e ir encontrá-lo. – Envolveu a pica dele nas mãos e afagou-a com suavidade. – Não levaria roupas de baixo sob o vestido, para que o senhor nem precisasse me desatar. – Os dedos dela brincaram com ele, para cima e para baixo. – Ou, se quisesse, podia fazer-lhe isto. – Enfiou-o na boca.
(ASOS, Tyrion II)
Quando Tyrion mostra que está veementemente decidido a que ela não deixá-la ir, Shae se retrai para a cortesia fria. Tyrion está pensando em como concederia facilmente o desejo de Shae, caso o pai não tivesse ameaçado enforcá-la, contrariando o que ele disse em A Fúria dos Reis, sobre o amor por Shae envergonhá-lo:
Se a escolha fosse sua, ela poderia sentar-se a seu lado no banquete de casamento de Joffrey, e dançaria com todos os ursos que quisesse.
(ASOS, Tyrion II)
Eu atribuo essa mudança de postura (de amor proibido envergonhado para amor proibido cauteloso) ao momento de Tyrion, em que ele perdeu todo o prestígio e está tentando se agarrar na única coisa de seu momento glorioso que ainda tem: Shae.
Em verdade, o comportamento de Shae espelha o de Tyrion. Ambos estão tentando arranjar um jeito de manter seu status. O anão também está tentando voltar ao poder pelas vantagens terrenas que ele oferece e não mais para “fazer justiça”. Naquele momento, Tyrion estava sendo a Shae de Tywin, pois está a todo custo tentando reivindicar direitos e reconhecimentos de seu pai.
O surpreendente é que após toda a teimosia de Tyrion, Shae finalmente cede a seu instinto de autopreservação e dá a Tyrion um parágrafo inteiro de resignação e obediência, ao fim do qual Shae apela para o cavalheirismo de Tyrion e lhe arranca uma promessa:
[...] Gostaria de ser a sua senhora, mas não posso. Se fosse, você iria me levar ao banquete. Não importa. Gosto de ser rameira para o senhor, Tyrion. Basta que me mantenha, meu leão, e que me mantenha a salvo.
Manterei – prometeu ele. Tolo, tolo, gritou a sua voz interior. Por que disse isso? Veio aqui para mandá-la embora! Em vez disso, voltou a beijá-la.
(ASOS, Tyrion II)
A prostituta parece entender que o novo momento de Tyrion exige dela uma abordagem diferente. Em suas palavras, de um homem poderoso que poderia desafiar o mundo por ela, ele agora era um cavaleiro que a protegia e resgatava do perigo:
Pensava que o senhor tinha se esquecido de mim. – O vestido dela encontrava-se pendurado em um dente negro quase tão alto quanto ela, e a moça estava em pé dentro das mandíbulas do dragão, nua. […] – O senhor vai me arrancar de dentro das mandíbulas do dragão, eu sei. [...]
Meu gigante – ela ofegou quando a penetrou. – Meu gigante veio me salvar.
(ASOS, Tyrion VII)
Shae veste tão bem a fantasia de donzela que chega a declarar seu amor a Tyrion e Tyrion responde em pensamento. Porém, por alguma ironia do destino, a prostituta estava querendo lhe fazer pensar que ele era um cavaleiro, enquanto o próprio Tyrion queria lhe casar com um cavaleiro de verdade para se ver livre dela:
E eu também a amo, querida. Podia ser uma prostituta, mas merecia mais do que o que ele tinha para dar. Vou casá-la com Sor Tallad. Ele parece ser um homem decente. E alto…
(ASOS, Tyrion VII)
É curioso como este é o único efeito colateral do novo estratagema de Shae. Tyrion fica tão embrigado pela ideia de ser o cavaleiro salvador da garota, que ele tem um momento de desencanto quando a prostituta sequer teme perdê-lo ao saber de seu casamento com Sansa Stark:
[…] Não me importa. Ela é só uma garotinha. Vai deixá-la comuma barrigona e voltar para mim.
Uma parte dele tinha esperado menos indiferença. Tinha esperado, escarneceu amargamente, mas agora sabe como é, anão. Shae é todo o amor que provavelmente terá.
(ASOS, Tyrion IV)
Eu penso que a indiferença de Shae se fundava em ela saber que somente corria perigo se Tyrion arranjasse outra prostituta como amante. Ela estava ciente do quão sexualmente indesejável ele era para a maioria da população de westeros e como ele era complexado com sua aparência e traumatizado com relações amorosas. Portanto, um casamento arranjado com uma jovem nobre donzela realmente não lhe representava perigo algum. Ela até mesmo tenta pedir na frente de Tyrion que Sansa a leve ao casamento de Joffrey, demonstrando que seu objetivo de participar da boa é sua real prioridade.
Porém, não há que se dizer que Shae é uma pessoa desprovidade de sonhos e fantasias. O fato é que esta fantasias não são românticas, mas delírios com mudanças de status social, luxos e riquezas. Quando Sansa a chama para ver uma nuvem no céu que parece um castelo:
É feito de ouro. – Shae tinha cabelos escuros e curtos e olhos ousados. Fazia tudo o que lhe era pedido, mas às vezes dirigia a Sansa os mais insolentes dos olhares. – Um castelo todo feito de ouro, aí está uma coisa que eu gostaria de ver.
(ASOS, Sansa IV)
Ou quando conversava com Sansa sobre Ellaria Sand e a garota apresenta sua versão dos fatos em que Ellaria seria uma espécie de Shae que “deu certo” em razão do relacionamento com Oberyn:
Era quase uma prostituta quando ele a encontrou, senhora – confidenciara a aia – e agora é quase uma princesa.
(ASOS, Sansa IV)
E são suas fantasias por status e luxo que a levam a testemunhar contra Tyrion a pedido de Cersei. O depoimento de Shae acontece logo antes de o anão pedir o julgamento por combate. Dessa forma, tudo o que a garota diz se torna juridicamente irrelevante de uma hora para outra. Essa manobra de Tyrion acaba por fazer com que Cersei se livrasse da obrigação de cumprir sua parte do acordo:
Shae, o nome dela era Shae. A última vez que tinham conversado fora na noite anterior ao julgamento por combate do anão, depois de aquele dornês sorridente ter se oferecido como seu campeão. Shae inquirira acerca de umas joias que Tyrion lhe oferecera, e de certas promessas que Cersei poderia ter feito, uma mansão na cidade e um cavaleiro que a desposasse. A rainha deixara claro que a prostituta não obteria nada até que lhes dissesse para onde fora Sansa Stark.
(AFF, Cersei I)
Interessante notar que o acordo feito por Shae consiste apenas no que Tyrion já tinha em mente em lhe dar.
O depoimento de Shae é uma peça que me chama bastante a atenção. A garota não só conta como Tyrion supostamente teria lhe tomado como amante à força e confidenciado os planos de matar Joffrey durante sua última noite juntos. Shae revela ali, perante Tywin, que era seguidora de acampamento do Ramo Verde:
Nunca quis ser uma prostituta, senhores. Estava noiva. Ele era um escudeiro, um rapaz bom e corajoso, de bom nascimento. Mas o Duende viu-me no Ramo Verde e pôs o rapaz com que meu queria casar na primeira fila da vanguarda, e depois de ele ser morto ordenou aos selvagens que me levassem à sua tenda. Shagga, o grande, e Timett, como olho queimado. Ele disse que se não lhe desse prazer, me entregava a eles, e portanto eu dei. Depois trouxe-me pra cidade, pra ficar por perto quando ele me quisesse. Obrigou-me a fazer coisas tão vergonhosas […]. Ele usou-me de todas as maneiras que há e… costumava me obrigar a dizer como ele era grande. O meu gigante, eu tinha de lhe chamar, o meu gigante de Lannister.
(ASOS, Tyrion X)
Como esta parte do depoimento era completamente desnecessária, eu fico me perguntando se ela foi bolada pela própria Shae, Varys ou Cersei. Sabemos que a garota é capaz de mentir, mas não vimos coisas com este tipo de elaboração. Como Varys é quem estava administrando o disfarce de Shae, fornecendo -lhe até histórias falsas sobre seu passado para que contasse à Tanda Stokeworth, acredito que tenha sido ele quem a orientou a assim depor.
Porém, qualquer seria o objetivo disto? Apenas para ele próprio se safar da acusação de que estava trazendo informações erradas a Cersei, algo que já lhe preocupava (ASOS, Tyrion VII)? Ou Varys queria que o depoimento de Shae chamasse a atenção de Tywin?
De fato, em uma entrevista em 16 de junho de 2014 à Entertainment Weekly, afirmou que a questão entre Varys, Shae, Tyrion e Tywin é algo que ele fará revelações nos próximos livros:
EW: Certo, e há também a questão da surpresa da hipocrisia de Tywin quando ele [Tyrion] a encontra na cama dele. Tywin sabia que ela era uma prostituta [na versão do livro isso não fica claro]? Ou ele simplesmente não ligava?
GRRM: Ah, eu acho que Tywin sabia sobre Shae. Ele provavelmente adivinhou que ela era a seguidora de acampamento que ela havia expressamente dito “você não levará aquela puta para corte”, mas que Tyrion o havia desafiado e levado "aquela puta" à corte. Quanto ao que exatamente ocorreu aqui, é algo sobre o qual não quero falar, porque há aspectos disso que eu não revelei e que serão revelados nos próximos livros. Mas o papel de Varys em tudo isso é algo para se levar em consideração.
Esta entrevista deu fundamentos para que os leitores passassem a acreditar que Varys teria influenciado Tyrion a matar Tywin. Mas, para fins desta análise, nos cabe apenas ver a situação da ótica do que aconteceu com Shae, quem até mesmo pela teoria acima seria um alvo secundário.
Assumindo que Varys tenha orientado Shae a dar este depoimento para chamar a atenção de Tywin, como é que isso a colocaria na Torre da Mão na noite anterior à execução de Tyrion? Sabemos que Cersei mandou Shae embora ás lágrimas na noite entre o depoimento de Shae e o julgamento por combate entre Gregor e Oberyn, então somente depois desta noite é que Shae provavelmente estaria suporte. Caso ela já estivesse sendo sondada por Tywin, dificilmente sairia chorando...
Eu alimento uma teoria que o ponto que fez Tywin se interessar pela garota foi a bajulação que ela confessou fazer a Tyrion. “Meu gigante de Lannister” parece ser o tipo de frase que agradaria um homem como Tywin debaixo dos lençóis. A partir daí, bastaria que Varys fizesse uma sugestão aqui, outra acolá e de repente Tywin já estava pedindo a alguém que enfiasse a menina em seus aposentos na noite seguinte.

Declarações de GRRM sobre Shae

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2020.01.30 19:59 lanaSouza Desabafo "conselheiro"..., como chegar viva e 'saúdável' fisicamente aos 50 anos

Conhece alguém que vive com Ansiedade, Depressão e uma Melancolia sem fim?
Não só conheço, como 'represento' uma dessas pessoas; INFELIZMENTE, não romantizo a sensação que me acompanha desde que me entendo como pessoa (melancolia); uma falta de pertencimento ao mundo que me rodeia (sou uma ET aqui na terra).
Durante alguns anos pude, com muito esforço e por causa da juventude, fazer esporte pesado (Karatê Shotokam) e canalizar essa frustração, essa angústia de estar aqui (no mundo).
Sempre, antes dos treinamentos, falávamos palavras de ordem no Karatê que são: "criar intuito de esforço, conter o espírito de agressão, fidelidade para o verdadeiro caminho da razão"...; o restante já me esqueci, porque lá se vão 28 anos desde que isso se passou; além dessas palavras, nós nos preparávamos com chutes e porradas no saco, além de pegar peso na academia (sei que isso não faz parte do Karatê, mas para mim ajudava muito, haja vista canalisar minha angústia, ansiedade diária e raiva por tudo e por nada).
O tempo passou, meu joelho não deu mais conta de seguir no Karatê (tentei Aeróbica e dança do ventre, algum tempo, mas não tinha muita coordenação motora; tentei seguir com musculação, todavia não gostava e ainda tinha que poupar o joelho e o cocxic que é quebrado, tudo isso foi me afastando, aos poucos, dos esportes e acabei virando sedentária ainda jovem (Aos 30 anos, deixei, 'definitivamente', de frequentar academias - só fazia algumas caminhadas em parques, pois nunca gostei, tampouco conseguia correr).

Quando estava em casa, o meu refúgio sempre foi meu quarto (estar só e no silêncio foi o que sempre fiz de melhor...e dormir ....dormia, dormia e dormia...dia e noite, era só achar uma cama estava eu a dormir, sem ânimo para nada....; jovenzinha, ainda fazendo Karatê, para me tirar de casa para diversão era difícil; as amigas diziam que eu fazia "C....Ú"... doce (rsrsr); uma forma de dizer que eu gostava que elas insistissem comigo (ledo engano); eu não queria era sair; quando saía era sempre a chata a ficar com sono e querer voltar logo (reclamava de dor no pé - aquela época usava saltos imensos e vestidos minúsculos...kkk, como qualquer jovem); a única coisa que me apetecia, além de dormir e do Karatê, era namorar, fui muito namoradora e romântica, por demais até!

A juventude e muito esforço me trouxeram até aqui (50 anos); com uma graduação difícil de ser concluída (faltava concentração - sobrava trabalho fora); tinha 2 (dois) em duas cidades distintas e só a noite ia à Faculdade, às vezes sem comer).
Um curso de 5 anos, fiz em 6 anos (e mal feito); o que aprendi, TUDO QUE APRENDI NO DIREITO, devo ao incentivo que recebi da competição que tinha no cursinho de 6 meses (intensivão para OAB e um para Delegado, também 6 meses); foi só aí que tomei gosto por estudar e comecei a me concentrar mais (não era tarde, mas já tinha 33 anos, ou mais).
A vida de ninguém é fácil, essa aí é um pouquinho da minha - uma pessoa sem horizontes, com pais que não podiam pagar e tampouco acreditavam que uma dorminhoca e "preguiçosa" como eu pudesse chegar a formar em Direito e ser Advogada (pelo menos foi o que fiz, durante algum tempo); para conseguir essa proeza tive que trabalhar em 2 empregos para pagar, eu mesma, os estudos - chegava em casa, todos os dias de semana, mais de 11 da noite, aí era a "vagabunda": "duvido que está estudando - velha não precisa mais estudar, basta trabalhar", dizia meu pai; felizmente, hoje ele é outra pessoa, mas não foi fácil!

Só fui ao psiquiatra, pela primeira vez, aos 45 anos - me aguentei como pude; suportei dores e vazios; raivas infundadas; solidão; tristeza, angústia existencial....não me imagino jovem nos dias de hoje, com facebook e instagram (as "desgraças" do século) - não chegaria ao 50 (estou segura)).
Por isso, caro jovem, meu conselho a você é deletar essas redes de sua vida - vá para algo mais produtivo; deixe de se expôr como se fosse feliz ou ficar rolando a time line, vendo a falsa felicidade alheia, isso só deprime quem já é propenso; apesar de alguns ainda acreditarem que Depressão é frescura e se pode curar com algumas frases como: "sai dessa, vá se divertir, a vida é linda", prefiro crer na minha e na dor alheia; mesmo assim sigo "admirando" a ignorância dessas pessoas para com os doentes da mente humana.... quando vão entender que as doenças que afetam o comportamento humano, que afeta o cérebro (é não é tumor), também é doença?
Afff, tenho pena dessas pessoas, e de quem tem que suportá-las ao lado!
(desculpe os erros que houver - não sou perfeita, tampouco o Direito me fez expert em ortografia).
Tenham todos um bom final de semana
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2020.01.20 03:58 altovaliriano Arya Stark

Mais uma vez o “sábado de personagens” deslocado para o domingo. E mesmo assim atrasa...
Hoje, Arya Stark é a personagem da semana.
Arya é literalmente a filha do meio de Catelyn e Eddard. A terceira de cinco. A segunda do sexo feminino. Mas é a única criança de Catelyn que se parece com uma Stark. Esta constatação, isoladamente, já revela como Arya se diferencia de seus irmãos.
Porém, o caso de Arya vai mais além. Ela herdou o espírito selvagem da família de Eddard, sendo especialmente parecida com sua falecida tia Lyanna. Talvez por isso que Ned tenha tanta tolerância com Arya e seus ímpetos aventureiros e inclinações marciais. De todo modo, Ned não poderia alegar desconhecer que sua filha não aceita exercer os papéis que são relegados às mulheres nos Sete Reinos:
– E eu posso ser conselheira do rei, construir castelos ou me tornar Alta Septã?
– Você – disse Ned, dando-lhe um suave beijo na testa – casará com um rei e governará seu castelo, e seus filhos serão cavaleiros, príncipes e senhores e, sim, talvez mesmo um Alto Septão.
Arya fez uma careta.
– Não – ela protestou –, esta é a Sansa – dobrou a perna direita e voltou aos exercícios deequilíbrio. Ned suspirou e a deixou ali.
(AGOT, Eddard V)
A natureza diferenciada de Arya, porém, tem seus custos. E o principal custo é sua convivência com sua irmã Sansa. Martin chegou a declarar (vide seção abaixo) que Arya foi criada primeiro, mas que a personagem estava muito bem relacionada com os demais irmãos. Assim, ele sentiu que era necessário criar Sansa para atazana-la.
De fato, o papel de Sansa e Jeyne Poole é apenas o de ridicularizar Arya e fazer com que ela frequentemente sentisse que não tinha competência para desempenhar os papéis que eram esperados dela como mulher. Ao longo dos livros, estes sentimentos parecem não se alterar. De modo que fica cada vez mais evidente que o afeto que as irmãs nutrem uma pela outra é, no máximo, distante:
Sansa era educada demais para sorrir da desgraça da irmã, mas havia o sorriso afetado de Jeyne no seu lugar. (AGOT, Arya I)
Arya saíra ao senhor seu pai. Os cabelos eram de um castanho sem brilho, e o rosto, longo e solene. Jeyne costumava chamá-la Arya Cara de Cavalo, e relinchava sempre que ela se aproximava. (AGOT, Arya I)
Sansa sonhara em ter uma irmã como Margaery; bela e gentil, com todas as graças do mundo às suas ordens. Arya havia sido completamente insatisfatória no que tocava a ser irmã. (ASOS, Sansa II)
A Agulha era Robb, Bran e Rickon, a mãe e o pai, até Sansa. (AFFC, Arya II)
Dentre seus irmãos, Arya somente desfruta de um relacionamento próximo com seu “meio-irmão” Jon Snow. Não é coincidência que Jon seja outra pessoa por quem Sansa nutre um afeto distante. Arya e Jon dividem algumas características. Ambos não se adaptam bem à atual dinâmica familiar de Winterfell e são os parentes de Eddard que mais se assemelham a ele. Estas peculiaridades provavelmente foram as responsáveis por unir Jon e Arya.
Entretanto, muitos leitores enxergam mais do que isso. Há durante toda a saga diversos momentos em que os “meio-irmãos” pensam um no outro em contextos que sugerem inclinações românticas, ainda que platônicas.
GRRM afirma (vide seção abaixo) que tais indícios eram fortes no primeiro livro, quando ainda existia a idéia de tornar Jon e Arya um par romântico, mas que isso foi sumindo dos livros ao longo da saga. Tudo não poderia ser algum tipo de complexo fraterno.
Entretanto, não é o que se verifica nos livros seguintes. A última vez que Arya e Jon se viram foi no começo de A Guerra dos Tronos, mas eles ainda estão pensando carinhosamente um no outro mesmo nos mais recentes volumes da série:
Ygritte trotou para o lado de Jon enquanto este reduzia o passo do garrano. Ela dizia ser três anos mais velha do que ele, embora fosse quinze centímetros mais baixa; qualquer que fosse a sua idade, a garota era uma coisinha rija. Cobra das Pedras chamara-a de “esposa de lança” quando a tinham capturado no Passo dos Guinchos. Não era casada e sua arma favorita era um pequeno arco curvado feito de chifre e represeiro, mas “esposa de lança” ajustava-se a ela mesmo assim. Lembrava a Jon um pouco sua irmã, Arya*, embora esta fosse mais nova e provavelmente mais magra. Era difícil dizer se Ygritte era magra ou gorda, comtodas as*peles que usava.
(ASOS, Jon II)
Ela nunca se incomodara em ser bonita, mesmo quando era a estúpida Arya Stark. Apenas seu pai já lhe chamara daquilo. Ele, e Jon Snow, algumas vezes*. Sua mãe costumava dizer que ela poderia ser bonita se lavasse e escovasse o cabelo e tomasse mais cuidado com suas roupas, do jeito que a irmã fazia. Para a irmã, as amigas dela e todo o resto, ela fora apenas Ary a Cara de Cavalo. Mas estavam todos mortos agora, até mesmo Arya, todos menos seu meio-irmão Jon. Algumas noites, ela ouvia falarem dele nas tavernas e bordéis do Porto do Trapeiro. O Bastardo Negro da Muralha, os homens o chamavam.* Nem mesmo Jon teria reconhecido a Cega Beth, aposto. Aquilo a deixava triste*.*
(ADWD, A Garota Cega)
Em todo caso, qualquer que seja, foi este sentimento que moveu Jon Snow a abandonar seus votos e desertar a Patrulha. Assim, é algo que move Jon em direção à Arya e o leva a aceita-la da forma que ela é.
Tal qual Eddard, Jon não desdenha da aptidões de Arya. Ele foi, em verdade, o primeiro patrocinador delas, antes mesmo do pai. Ao presentar a “irmã” com Agulha, Jon semeou o terreno para que Eddard oferecesse a Arya um treinamento de dançarina da água. É notório que Eddard estava tentando desviar Arya de ambições maiores (como a cavalaria, por exemplo), mas a história de Agulha e o treinamento com a Syrio Forel forem responsáveis por plantar prenúncios frutíferos na história.
O primeiro foi tornar Braavos uma cidade com a qual Arya tinha uma ligeira familiaridade. Assim, quando ela tivesse que ir para lá, não parecesse um total tiro no escuro. A segunda é a frase que Jon Snow diz antes mesmo de presentar a irmã:
Quanto mais tempo ficar escondida, mais severa a penitência. Costurará durante todo o inverno. Quando chegar o degelo da primavera, encontrarão seu corpo ainda com uma agulha bem presa entre os dedos congelados.
(AGOT, Arya I)
Muitos leitores veem nesta frase um prenuncio de que Arya poderia morrer durante a Batalha pela Alvorada. Assim, caso se corpo fosse encontrado com a espada Agulha presa às suas mãos, saberíamos que as palavras inocente de Jon se provaram proféticas. Até mesmo poderia servir para que o corpo de Arya fosse identificado mesmo se ela estivesse com um rosto diferente.
Outro fato de nota que ocorreu a Arya antes de partir para Porto Real e todas as aventuras que se seguiram daí foi a adoção da loba gigante Nymeria. Ainda que soe natural que Arya daria um nome de uma mulher ousada para sua loba, a referência dornesa parece de alguma forma distante demais da realidade nortenha para que não haja algum significado nesta escolha... ou talvez seja apenas um detalhe de construção de mundo.
Qualquer que seja o caso, Nymeria e Arya foram separadas com pouco tempo de criação e adestramento. Este tempo,entretanto, foi suficiente para que o dom como troca-peles de Arya fosse despertado. O fato de que Nymeria conseguiu sobreviver ao ser forçada a fugir foi determinante para o desenvolvimento à distância das aptidões de Arya.
Plantadas estas idéias no leitor, Martin segue até o final de A Guerra dos Tronos fazendo com que Arya passe por horas de treinamento, ocasionalmente usando-a como espectadora de eventos inusitados, como o encontro entre Illyrio e Varys no subsolo da Fortaleza Vermelha. Um fato curioso deste encontro é que Arya observa bem a fisionomia de Illyrio, mas não a de Varys (que está disfarçado). Dessa forma, uma amiga me questionou se isso não seria um indício de que Arya poderia ter que acabar recusando uma missão da Casa do Preto e do Branco para matar Illyrio no futuro, pois o “conhece”. É uma questão a se pensar...
De toda forma, Arya presencia em mais vivacidade o massacre dos homens Stark no momento da prisão de seu pai, assim como está presente quando ele tem sua cabeça cortada. A fuga da Fortaleza Vermelha, inclusive, a provoca a matar uma pessoa pela primeira vez na vida: um cavalariço de sua idade que poderia denunciá-la.
Quando Yoren a extrai de Porto Real para leva-la ao Norte, Arya começa a ter que sobreviver em meio ao luto. Assim como Sansa, Arya é deixada em circunstância hostis. Durante os A Fúria dos Reis, ambas as garotas suportam muitos abusos e humilhações, mas ao menos Sansa pôde contar com relativo conforto. Da parte de Arya, ainda que ela desde pequena se sinta à vontade em meio à plebe, a jornada se prova particularmente árdua. Especialmente porque Arya se vê pela primeira vez vivendo sobre uma nova identidade.
Após a morte de Yoren, não demora para que o grupo de órfãos vire presa de Gregor Clegane e seu bando. Conforme se passam no cárcere, Arya começa a bolar sua famosa lista, com todas as pessoas que ela julga responsável por trazer sofrimento a ela e àqueles ao seu redor. O que é curioso é que, apesar de listar o Rei Joffrey entre os albos, a garota de 9 anos não tenha o discernimento de que sua lista somente mira em capangas e fantoches, mas esquece de vilões de verdade, como Tywin Lannister.
Essa falta de discernimento se repete quando Arya está em Harrenhal e Jaqen a oferece 3 mortes em troca das vidas que ela salvou do incêndio. Novamente, a garota Stark se limita a indicar nomes sem importância. Quando surge a ideia de nomear Tywin Lannister, sentimentos nacionalistas a fazem burlar a barganha de Jaqen para convencê-lo a ajudá-la na libertação dos prisioneiros nortenhos e dos homens Frey. Portanto, Arya não demonstra não empregar seu potencial assassino para grandes causas, atendo-se a pequenas vinganças e revanches.
Ainda assim, Jaqen entrega a Arya a moeda de ferro que mais tarde a levaria a Braavos para o treinamento junto aos homens sem rosto. O que causa curiosidade seria o motivo pelo qual Jaqen selecionou a menina. O perfil dela não combina com o da seita, como vemos ao longo de Festim dos Corvos e Dança dos Dragões. Sem falar que ele a presenciou fazendo uma barganha contra o próprio Jaqen.
Fora de Harrenhal, Arya acaba novamente sendo feita prisioneira alguns dias depois de partir. Mas dessa vez, é reconhecida e fica permanentemente na expectativa de ser levada a sua mãe, não importa se vendida ou simplesmente entregue. Mas o objetivo da viagem que Martin a impõe é conhecer os efeitos da guerra sobre as Terras Fluviais, sob o ponto de vista dos camponeses.
Antes que essa jornada termine, porém, duas coisas ocorrem: Arya é raptada por alguém em sua lista (Sandor Clegane) e Roose Bolton informa que encontrou Arya e vai enviá-la ao Norte.
Como GRRM gosta de lembrar as semelhanças entre Arya e Lyanna, não há como não enxergar em seu rapto ecos do rapto de sua tia por Rhaegar Targaryen. Talvez haja aqui algum paralelismo que estamos deixando de enxergar. Mas as distinções são bem claras. Sandor estava levando Arya de volta pra casa, enquanto Rhaegar estava levando Lyanna para longe do Norte. Um detalhe incidental nesta questão é que Sandor “morre” à beira do Tridente tal qual Rhaegar (ainda que este tenha morrido no vau rubi, local que Arya e Sandor evitaram).
Quanto ao segundo evento, a farsa de Jeyne Poole como a falsa Arya permitiria que a verdadeira se tornasse, de fato, ninguém. A intenção, claro, era fechar uma ponta para resgatar a história dali a 5 anos, quando Jeyne Poole já estivesse estabelecida como Arya. Neste futuro que nunca aconteceu, Arya haveria florescido, o que era a intenção de Martin. Ele sempre cita como as histórias dos adultos não tinha tempo para esperar que “Arya chegasse a puberdade”.
De fato, como Arya é comparada com Lyanna diversas vezes, seria de se esperar que a puberdade lhe avivasse a beleza selvagem e que já a víssemos em Braavos em estado avançado de seu treinamento. Se sabe que o primeiro capítulo de Arya em Os Ventos do Inverno foi escrito antes de Martin abandonar o salto de 5 anos, portanto, as circunstâncias que ela parece que vai viver agora aos 11 anos seriam aquelas que, originalmente, se pensava que ela viveria ao 16 anos (aproximadamente a mesma idade que Lyanna tinha quando morreu).
Porém, o caminho seguido em O Festim dos Corvos e A Dança dos Dragões foi acompanhar o treinamento de Arya desde o começo. Muitos leitores acusam estes capítulos de serem encheção de linguiça, mas eu os entendo apenas como lentos. Há 3 linhas mestras acontecendo neles: 1) modificações na política de Braavos, 2) conflitos internos da própria Arya não querendo abandonar sua herança Stark, 3) revelação de segredos da Casa do Preto e do Branco.
Caso o salto temporal houvesse ocorrido, eu imagino que os 2 primeiros itens poderiam ser contados facilmente via flashbacks, sem necessidade de presenciarmos as sementes serem plantadas (que é o que Martin parece ter feito ao longo de Festim e Dança). Porém, o terceiro item me parece ser o cerne dos capítulos de Arya, como ou sem salto temporal.
Era de se esperar que os sacerdotes não fiquem contando segredos a acólitos tão novos como Arya. Mas o Homem Gentil parece estar estranhamente aberto a instruir uma aprendiz com menos de 1 ano de Casa sobre a história da seita e lhe permitir fazer missões com rostos novos. E Arya não está se provando ser digna dessa confiança.
Bem, na série da HBO, a Casa do Preto e do Branco tentou eliminar Arya, mas ela simplesmente se mostrou superior ninguém sabe como. Em A Dança dos Dragões, Arya demonstrou estar um passo à frente do Homem Gentil entrando na pele de um gato de rua que a seguiu até o templo. Com este truque ela conseguiu descobrir que era o sacerdote quem a surrou quando estava cega.
Muitos leitores especulam que esta habilidade sobrenatural seria uma vantagem que Arya usaria para trapacear nos treinamentos, haja vista que não é uma habilidade pela qual Homens Sem Rosto são famosos. Daí, afirmam esses leitores, quando a convivência na Casa do Preto e do Branco se tornar insustentável e um Homem Sem Rosto for enviado para eliminar a discípula rebelde, os poderes de troca-pele são o diferencial que faria com que Arya sobrevivesse ao ataque do assassino e pudesse escapar de Braavos para Westeros.
O retorno de Arya a Westeros é outra icógnita. Atualmente não sabemos de motivos que a tirariam de Essos. Alguns apontam a morte de Jon Snow como o combustível. Mas eu costumo argumentar que Arya matou o cantor Dareon simplesmente por ele ser um desertor, como Jon. Outros acreditam que Arya saberá sobre o próprio casamento com Ramsay e virá a Westeros para desfazer a farsa. E, por fim, há aqueles que dizem que ela simplesmente voltará para matar Freys, Boltons e o restante de sua lista.
Porém, há um grande consenso que esta volta implicará em um encontro com sua mãe, agora na forma de Senhora Coração de Pedra. Alguns acreditam que este encontro será chocante o suficiente para mudar a cabeça de Arya com relação ao seu desejo de vingança. Outros acreditam que a confluência de objetivos só tornará tudo duplamente letal.
Bem, qualquer quer seja o desfecho da história, ainda não foi publicado. Nos resta especular.

Declarações de GRRM sobre Arya

PERGUNTAS

  1. Jon e Arya têm inclinações românticas reais (ainda que platônicas) um pelo outro? Ou é apenas Freud em ação?
  2. A frase de Jon sobre Arya ser encontrada congelada com agulha na mão é um presságio de que ela morrerá na batalha da alvorada?
  3. O fato de ter nomeado sua loba como Nymeria, revela que Arya teria alguma propensão para viajar a Dorne nos próximos livros?
  4. Os poderes de troca-pele de Arya são alguma forma de trapaça para o treinamento dos Homens Sem Rosto?
  5. O rapto de Arya por Sandor ecoa de alguma forma o rapto de Lyanna por Rhaegar?
  6. Você acha que os capítulos de Arya em Braavos estão mais para encheção de linguiça ou escalada de tensão?
  7. Que diferença você acha que o abandonado “salto temporal de 5 anos” faria na história de Arya pós-A Tormenta de Espadas?
  8. Você acredita que os poderes de troca-peles de Arya a farão uma assassina particularmente perigosa entre os Homens Sem Rosto?
  9. O que você acha que vai levar Arya de volta a Westeros?
  10. Você acredita que Arya se encontrará novamente com seus irmãos, Jeyne Poole ou Senhora Coração de Pedra? Caso positivo, que tipo de reação você espera que ela tenha nestes encontros?
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2019.12.24 11:29 odiceuqirne Clarão pós-"insônia"

Tem sido bem difícil. Vi aos poucos minha ansiedade amenizar e os sintomas da depressão surgirem. Vi minhas primeiras relações românticas não dar nada certo e, por um tempo, eu até acreditava que estava aprendendo com elas. Deixei de ser o rapaz que abraçou o pai com um choro tímido na minha troca de cidades para ser um manteiga derretida que lacrimeja até com cenas de novela das 9. Minhas maiores paixões e dedicações adolescentes (futebol e videogame) foram largadas por falta de possibilidades, e foram mal substituídas por qualquer outra coisa que eu encontrei pela frente, no momento sendo cigarro e maconha.
Bom, meus dois anos de faculdade tão trazendo muitas experiências e uma bagagem negativa muito grande até agora. Esse último semestre foi o estopim de toda a treta psicológica. E, olha, eu dei bons passos para a frente nesse mesmo período. Se por um lado, eu comecei a fazer terapia, firmei um relacionamento, arrisquei artisticamente e fortaleci laços com os próximos, por outro lado eu comecei a pensar em suicídio com um tabu imenso de tocar no assunto, eu reprovei em três de cinco matérias na facul, eu fiquei dias sem comer, eu fiquei dias sem tomar banho e fiquei semanas dormindo num quarto recheado de roupas ao invés de chão.
Mas, para justificar o título, eu não vim falar de toda a treta. A treta mais recente foi que eu usei um LSD e ele não bateu muito bem. Não foi uma bad trip, eu não chorei, não me pesei nem nada, mas eu não consegui ser nada além do que eu já sou: um cara tímido, introspectivo, omisso, passivo. A minha preocupação e onipotência em relação as pessoas que também estavam no rolê me travou muito.
Aproximadamente uma dúzia de dias depois da experiência, aqui estou eu. Sem forças para levantar da cama ou do sofá por conta própria, a não ser que seja por vontade de mijar ou de comer. Não conseguindo reagir rápido o suficiente a pedidos simples das pessoas próximas. Ficando com um olhar perdido e tendo que constantemente me avisar do que eu iria mesmo fazer. Sem coragem de tomar decisões por mim mesmo, perdendo total a minha autonomia. Ontem (no caso domingo, pq madruguei agora e estou confuso) eu joguei futsal com a galera do ensino médio e, além de não conseguir me enturmar nem um pouco, eu errei diversas coisas bestas. Desde o meu primeiro erro, um colega me deu bronca e o choro já veio na porta dos meus olhos. Chorei imensamente ontem no banho, e foi ali que me toquei que eu realmente estava tratando o assunto suicídio de forma diferente.
Hoje foi diferente. Meu irmão esteve presente cedo no meu dia, e me convidou para carregar uns cavaletes para meu pai que tá trampando fora. Fui. Foi uma merda. Fui de chinelo e calça jeans, que era como eu estava, e tinha barro lá. Não consegui evitar, e só queria desaparecer instantaneamente. Na volta pra casa, meu irmão compartilhou um payero e um baseado comigo. Mudou um pouco minha perspectiva, por algumas horas. Não pude "aproveitar" (com muita ênfase nessas aspas) a pira do Beck porque ele tava focado em passar o cabo da internet para a casa do vizinho, que foi um pedido que eu fiz dos poucos comentários que eu fiz durante todo o dia. Eu sinceramente só queria jogar um cszin com o cabo de rede conectado... Mas enfim, depois disso meu primo veio aí e ficamos jogando Worms. Depois, no entardecer, fiquei sozinho. Meus pais estavam saindo, meu pai foi no mercado e ele perguntou se eu queria algo. Pedi um energético, e brinquei com o meu estado: "um pouco de energia vai fazer bem". Daí minha mãe saiu tbm, e eu ouvi o RPAV.3 (álbum do don l lindo) enquanto fazia malabares e depois enquanto tomava banho. No durante do banho, troquei para uma playlist de improviso e comecei a tentar colocar as coisas pra fora em forma de rima, já que eu gosto de brincar disso. Foi muito bom, funcionou bem. Mais tarde, e até às 3, eu fui o lixo de sempre e fiquei assistindo YouTube. Mas das 3 até agora, eu tô fazendo algumas coisinhas no celular. Organizei tudo. Criei umas contas novas para usar em 2020 (tipo drive, todoist, etc), organizei Spotify, baixei uns podcasts, etc. Agora estou aqui, gastando 30 minutos para escrever sobre as coisas. Claro, eu preciso dormir, em algum momento, mas hoje foi um dia bom, e isso é estranho.
Obrigado por ler, desculpe pelos erros aí nas concordâncias da vida, deve ser a sequela do lsd e tbm a falta de prática. Tenham uma boa terça, e se vc comemora o natal mais no dia 24 a noite do que no dia 25, feliz natalzito antecipado! <3
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2019.11.04 23:10 PeruActivo O autoclismo

Estávamos em Manila e tínhamos decidido ir ao Chica Menuda, um restaurante de estilo espanhol, com empregados trajados a rigor, com todos os apetrechos e apeiros distintivos da mais pura hispanidade andaluza.
As serventes saraquitavam num vaivém atarefado, pautado pelo ruge-ruge vermelho vivo dos folhos dos seus vestidos de sevilhana. Uma rosa vermelha, encarrapitada nos longos e lustrosos cabelos negros apanhados de uma delas, cumprimentou-nos sorridente, quando se aproximou da mesa para nos perguntar o que íamos tomar. E um garrido fajuto, desenhado à pressa no canto do lábio superior, encarquilhou-se de dúvidas e hesitações, quando nos tentou explicar num inglês mal-amanhado, e depois num espanhol pior ainda, o conteúdo da ementa.
O repasto foi chegando em grandes e repimpadas travessas. A refeição transcorreu pela noite dentro. As copadas de vinho cantavam de alegres e sucediam-se umas às outras de enfiada. A animada cavaqueira transbordava da mesa, em estrondosas barrigadas de riso ou nos exaltados arroubos de emoção que atonavam na voz dos que contavam desbragadas pataratas românticas ou ousados relatos das suas aventuras rocambolescas pelo sudeste asiático.
Aos poucos e poucos, a noite foi avançando. A lufa-lufa de sevilhanas e de homens de chapéu de aba e jaquetão negros, a estugar pelas coxias das mesas amainou. O restaurante começou aos poucos esvaziar-se. A animação da conversa serenou-se naturalmente e o ambiente adquiriu um natural estado de acalmia divertida, mas ronceira. E eis senão que, depois daquele opíparo banquete, de proporções dignas de um festim romano, senti o chamamento da natureza a roncar dentro de mim. Para poupar os meus convivas aos nada sedutores borborigmos que me tamborilavam no bombo intestinal, escapuli-me de mansinho, rumo ao trono latrinário.
Serpenteio por entre as mesas, de nádegas apertadas e passos curtos. Passo por um servente, que me faz um cumprimento baixando a aba do chapéu e que, depois de um aflitivo impasse linguístico em que lhe tento perguntar pelo WC ou os Lavabos e ele me encara com interrogações franzidas nos olhos, lá me indicou a casa de banho, ao fundo da sala, por um vão de escadas acima.
Entro pela porta que diz caballeros, cifrada com a silhueta de um toureiro. O interior é sumário. Resume-se a uma sanita, com um autoclismo de puxar, que pende do tecto por uma corrente e se remata numa esfera dura de plástico negro na ponta. Não me ponho com grandes contemplações, levanto o tampo, sento-me e ponho fim àquele aperto.
Depois de estar despachado o serviço, quando vou a puxar pela corrente do autoclismo, já a contar com o alívio espiritual do ruído da descarga, fico só com o inquietante tlaque mecânico da alavanca interna do autoclismo a bater no sifão e mais nada. O autoclismo não descarrega.
Torno a puxar da corrente com mais força. Nada.
Dou uma série de puxões. Os elos da corrente chocalham a bater uns nos outros, a alavanca do mecanismo martela meia dúzia de tlaques, mas o refluxo da água, nem vê-lo nem ouvi-lo.
Fico pasmo a olhar para a sanita, para o poio flutuante que me encara com uma impertinência indignada. “E agora?” penso de mim para mim.
Vou-me embora? Deixo isto assim?” relanceio para a porta.
Não, não posso fazer isso. Está cá pouca gente, eles vão saber logo que fui eu… Além disso, tu tens essa cara-podre de sair lá fora, como se não fosse nada contigo? És uma dessas pessoas?
Inspiro fundo, para aclarar as ideias, mas o miasma fétido inunda-me as narinas e traz-me lágrimas aos olhos.
Tenho de avisar alguém, para “tratar” disto.
Saio da casa de banho e, à boca das escadas, procuro avistar algum dos empregados. O mesmo homem que me indicara a casa-de-banho ainda estava ali postado, no mesmo sítio de antes. Envergonhadamente, aproximo-me dele tripetrepe. Toco-lhe no ombro e, com uma expressão compungida, incapaz de o encarar, balbucio qualquer coisa em inglês para lhe dizer que o autoclismo não funciona. O homem não me entende. Com um sorriso solicito, torna a apontar-me lá para cima e diz-me num sotaque cerrado «yes, toilet», enquanto acena vivamente. Tento explicar-lhe que não é isso. Já não estou à procura do quarto-de-banho. A expressão do homem desfaz-se em total desentendimento. Tento explicar-lhe por gestos, mas os meus dotes de mimo são deploráveis. De maneira que parei a meio de uma rebuscada explicação, em que estava a fazer com a mão esquerda um punho aberto (em forma de copo) – neste caso a sanita- e com dois dedos da mão direita que entravam e saiam do copo/sanita – a tentar simbolizar a água do autoclismo. Até porque o homem estava claramente a tentar conter o riso.
Pedi-lhe então por gestos que me seguisse até ao quarto-de-banho, para lhe poder mostrar o problema. Mas aí o homem até deu um passo para trás, de olhos arregalados e cenho cerrado, como se lhe tivesse acabado de fazer uma proposta obscena. «No, no» respondeu-me, gesticulando de dedo espetado, enérgica e vivamente. Apontou-me ainda para uma das colegas, vestida de negro, advertindo-me, porém, com um gatimanho do polegar a esfregar no indicador e no dedo do meio estendidos, que teria de haver alguma espécie de contrapartida monetária para aquilo que ele achava eu estava a propor.
Fiz que «não» veementemente, que «não era isso». E depois de muita insistência, lá consegui convencer o homem a acompanhar-me, a contragosto, ao interior do quarto-de-banho dos homens. Engoli em seco e, com o dedo esticado, apontei para o interior da sanita. O poio boiante cumprimentou o empregado com uma cara de poucos amigos. O homem encarou-me com uma mescla surrealista de horror, surpresa e indignação. No trejeito que lhe ocupou o rosto algo exclamava «não me pagam que chegue para aturar estas merdas». Depois, teatralmente assinalei o autoclismo, como uma menina de um concurso de televisão é capaz de passear as mãos em redor de uma montra de prémios.
E quando fui finalmente puxar da corrente, para lhe explicar a avaria, uma descarga de água jorrou pelo sifão e fez desaparecer o poio pelo cano abaixo.
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2019.08.10 10:45 jwachowski Amar é preciso, viver não é preciso

No rádio tocava Corcovado — Tom Jobim e de dentro do barco realmente dava para ver o Cristo cada vez mais longe lá em cima do Pão de Açúcar. A mulher se abanava numa cadeira de praia enquanto o marido orgulhoso guiava o velho barco alugado, olhando para frente como se fosse Ulisses avistando Ítaca ao longe.
— Armando? Pra onde tamo indo? Não tá ficando muito longe da praia não? — Perguntou Lilian.
— Só mais um pouco. Eu quero ver o que tem depois do horizonte.
— Affss… Eu quero chegar em casa há tempo de ver o restante da minha série. Aqui nem sinal de celular pega.
— Mas essa era a intenção… — Armando resmungou baixinho suspirando logo em seguida.
— Disse alguma coisa?
— Não, nada não.
— Será que tem pelo menos banheiro aqui? — Lilian perguntou
— Tem sim. Tem até uma cozinha na cabine. Olha na caixa térmica, eu trouxe vinho e tainha pra gente tirar um gosto.
— Não sei se vou conseguir comer. Estou ficando enjoada com esse vai e vem.
O mar calmo nos primeiros momentos da viagem guiava aquele barco que um dia já fora novo como os primeiros raios da manhã. Quantas crianças já foram alimentadas com a pesca daquela embarcação? Quantas alegrias, pores do sol e tempestades já enfrentara? Com a concorrência das grandes empresas pesqueiras os pequenos barcos que sobraram apenas serviam para passeio com turistas ou quando muita sorte tinha poderiam parar em algum museu e se tornar personagem de algum conto de pescador.
Lilian voltou do banheiro e sentou novamente na cadeira de praia. Se enterrou com cara apática na tela do celular vendo fotos e paginas salvas no cache off line do navegador enquanto o silencio de um tempo indefinido era preenchido pelo motor do barco.
— Olha, Lilian! Dois golfinhos passando! — Armando gritou mas ela com o fone de ouvido não ouviu.
— Ahm? O que?
— Passou.
— Passou o que?
— Lilian, pelo amor de deus LAR-GA esse celular um pouco. — Armando se aproximou da cadeira por trás e pegou o celular da mãe dela.
— Me devolve meu celular!
— Então aproveita minha companhia pelo menos uma vez na vida.
— Não quero aproveitar nada não. Não queria nem ter vindo. Quando você falou que ia fazer uma surpresa romântica, não pensei que você fosse alugar um barco velho caindo aos pedaços.
— Velha caindo aos pedaços tá a sua mãe que não deixa a gente em paz um segundo.
— Não fala da minha mãe não tá?
— Que não fala o que? Velha linguaruda se mete em tudo, ah que merda!
— Vai pra merda você! — Lilian disse isso e no mesmo instante viu o celular voando pelo ar mergulhando no oceano azul e imenso. — Eu não acredito que você jogou meu celular no mar, Armando! Seu viado!! Agora cadê minhas fotos?
— As fotos tão nas nuvens. Depois você compra outro celular.
— Quero ir pra casa.
Há muito sem eles perceberem o tempo já tinha fechado no horizonte. O céu escurecia e o mar revolto balançava o barco cada vez mais forte. Um bom pescador vê a chuva há quilômetros de distância. Quando se vê relâmpagos ao longe, bem antes mesmo do primeiro trovão alcançar os ouvidos, o bom pescador recolhe suas redes e volta para terra firme. Porque não vemos também os relâmpagos que cortam nossa vida? Silenciosamente a maré vai subindo, subindo até uma hora que não se pode mais lutar contra a violência das águas e as ondas que fazem o barco descer e subir como se fosse de pape se tornam normais. Não vemos um palmo mais na frente do nariz. Parece uma sinuca, um labirinto sem fim. Nos embriagamos de raiva e de ilusões de que o tempo vai mudar de uma hora para outra.
— Armando, o tempo tá fechando. Bota esse troço pra voltar logo.
— Tô tentando mas não tô conseguindo controlar mais o mastro. — Nesse mesmo instante o motor do barco para, deixado no ar apenas o som do mar cada vez mais revolto e ávido.
— Não acredito nisso, Armando! O que a gente faz agora?
— Coloca o salva vidas que eu vou ver se o rádio tá pegando.
— Mayday, mayday, mayday! — Dizia Armando no rádio que emitia apenas um chiado. — Alerta de tempestade alerta de tempestade! Precisamos de ajuda! Mayday, mayday, mayday!
O barco bateu numa grande pedra e derrubou Lilian e Armando no chão da embarcação. A água começou a entrar pelo fundo igual ao Titanic mas a diferença é aquele barco já não tinha nenhum bote salva vidas que ainda pudesse ser aproveitado. Tantos anos de tempestade e sol vai desgastando qualquer material. Tudo nessa vida precisa de manutenção. E não vão vocês achando que existem culpados. Tudo tem um fim e ao mesmo tempo todos e ninguém tem culpa disso. Nem as pirâmides do Egito vão durar para sempre quem dirá um barquinho a vapor sem manutenção a tantos anos. Às vezes é melhor aposentar o veículo antes de precisar pular do barco às pressas.
— A gente vai ter que pular na água. — Disse Armando quando a água invadiu a cabine onde eles estavam.
— Eu não quero morrer. — Disse Lilian chorando.
— Calma. A gente não vai morrer. Ainda temos muito que viver. — Disse isso e abraçou a esposa.
Na ponta do barco, primeiro pulou Lilian e logo em seguida Armando. Se segurando em um pedaço de madeira que se desprendeu do barco os dois boiavam com a ajuda dos salva vidas infláveis. Viam de longe o barco afundar devagarinho como se acenasse dizendo foi bom o tempo aqui na superfície mas agora preciso descansar. O mar se acalmava à medida que engolia a pequena embarcação a vapor. Quando a proa do barco finalmente desapareceu da vista dos dois, ouviram um helicóptero se aproximando com o cesto salva vidas pendurado.
O barco descansa tranquilamente no fundo do oceano esperando o dia em que o mar vai virar deserto para contar por aí que foi bom ter vivido. Foi bom ver o sol, o vento e os pés gelados nas minhas costas à noite. Não guarda raiva de quem não cuidou de ti. Não guardo raiva, só guardo as lembranças. As boas e as ruins e tudo que aprendi. E se não for por isso que estamos aqui eu já não sei mais de nada. E quem disser que não valeu a pena navegar todos esses anos nesse mar imprevisível e infinito que é viver está mentindo. Viver é incerto, é como o mar a noite e isso é a magia meu irmão! Respirar cada dia querendo navegar mais. Sim, é preciso. Alugue outro barco se for preciso e devolva apenas no final da vida se assim desejar, só não deixe de navegar. Viva tudo que tiver de viver. E termine tudo, resolva tudo. Não deixe nada subentendido, não deixe nada pela metade. Também não deixe de amar. Amar é preciso, viver não é preciso. O amor é a lei, amor sob vontade.
Texto no Medium
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2019.08.10 10:45 jwachowski Amar é preciso, viver não é preciso

No rádio tocava Corcovado — Tom Jobim e de dentro do barco realmente dava para ver o Cristo cada vez mais longe lá em cima do Pão de Açúcar. A mulher se abanava numa cadeira de praia enquanto o marido orgulhoso guiava o velho barco alugado, olhando para frente como se fosse Ulisses avistando Ítaca ao longe.
— Armando? Pra onde tamo indo? Não tá ficando muito longe da praia não? — Perguntou Lilian.
— Só mais um pouco. Eu quero ver o que tem depois do horizonte.
— Affss… Eu quero chegar em casa há tempo de ver o restante da minha série. Aqui nem sinal de celular pega.
— Mas essa era a intenção… — Armando resmungou baixinho suspirando logo em seguida.
— Disse alguma coisa?
— Não, nada não.
— Será que tem pelo menos banheiro aqui? — Lilian perguntou
— Tem sim. Tem até uma cozinha na cabine. Olha na caixa térmica, eu trouxe vinho e tainha pra gente tirar um gosto.
— Não sei se vou conseguir comer. Estou ficando enjoada com esse vai e vem.
O mar calmo nos primeiros momentos da viagem guiava aquele barco que um dia já fora novo como os primeiros raios da manhã. Quantas crianças já foram alimentadas com a pesca daquela embarcação? Quantas alegrias, pores do sol e tempestades já enfrentara? Com a concorrência das grandes empresas pesqueiras os pequenos barcos que sobraram apenas serviam para passeio com turistas ou quando muita sorte tinha poderiam parar em algum museu e se tornar personagem de algum conto de pescador.
Lilian voltou do banheiro e sentou novamente na cadeira de praia. Se enterrou com cara apática na tela do celular vendo fotos e paginas salvas no cache off line do navegador enquanto o silencio de um tempo indefinido era preenchido pelo motor do barco.
— Olha, Lilian! Dois golfinhos passando! — Armando gritou mas ela com o fone de ouvido não ouviu.
— Ahm? O que?
— Passou.
— Passou o que?
— Lilian, pelo amor de deus LAR-GA esse celular um pouco. — Armando se aproximou da cadeira por trás e pegou o celular da mãe dela.
— Me devolve meu celular!
— Então aproveita minha companhia pelo menos uma vez na vida.
— Não quero aproveitar nada não. Não queria nem ter vindo. Quando você falou que ia fazer uma surpresa romântica, não pensei que você fosse alugar um barco velho caindo aos pedaços.
— Velha caindo aos pedaços tá a sua mãe que não deixa a gente em paz um segundo.
— Não fala da minha mãe não tá?
— Que não fala o que? Velha linguaruda se mete em tudo, ah que merda!
— Vai pra merda você! — Lilian disse isso e no mesmo instante viu o celular voando pelo ar mergulhando no oceano azul e imenso. — Eu não acredito que você jogou meu celular no mar, Armando! Seu viado!! Agora cadê minhas fotos?
— As fotos tão nas nuvens. Depois você compra outro celular.
— Quero ir pra casa.
Há muito sem eles perceberem o tempo já tinha fechado no horizonte. O céu escurecia e o mar revolto balançava o barco cada vez mais forte. Um bom pescador vê a chuva há quilômetros de distância. Quando se vê relâmpagos ao longe, bem antes mesmo do primeiro trovão alcançar os ouvidos, o bom pescador recolhe suas redes e volta para terra firme. Porque não vemos também os relâmpagos que cortam nossa vida? Silenciosamente a maré vai subindo, subindo até uma hora que não se pode mais lutar contra a violência das águas e as ondas que fazem o barco descer e subir como se fosse de pape se tornam normais. Não vemos um palmo mais na frente do nariz. Parece uma sinuca, um labirinto sem fim. Nos embriagamos de raiva e de ilusões de que o tempo vai mudar de uma hora para outra.
— Armando, o tempo tá fechando. Bota esse troço pra voltar logo.
— Tô tentando mas não tô conseguindo controlar mais o mastro. — Nesse mesmo instante o motor do barco para, deixado no ar apenas o som do mar cada vez mais revolto e ávido.
— Não acredito nisso, Armando! O que a gente faz agora?
— Coloca o salva vidas que eu vou ver se o rádio tá pegando.
— Mayday, mayday, mayday! — Dizia Armando no rádio que emitia apenas um chiado. — Alerta de tempestade alerta de tempestade! Precisamos de ajuda! Mayday, mayday, mayday!
O barco bateu numa grande pedra e derrubou Lilian e Armando no chão da embarcação. A água começou a entrar pelo fundo igual ao Titanic mas a diferença é aquele barco já não tinha nenhum bote salva vidas que ainda pudesse ser aproveitado. Tantos anos de tempestade e sol vai desgastando qualquer material. Tudo nessa vida precisa de manutenção. E não vão vocês achando que existem culpados. Tudo tem um fim e ao mesmo tempo todos e ninguém tem culpa disso. Nem as pirâmides do Egito vão durar para sempre quem dirá um barquinho a vapor sem manutenção a tantos anos. Às vezes é melhor aposentar o veículo antes de precisar pular do barco às pressas.
— A gente vai ter que pular na água. — Disse Armando quando a água invadiu a cabine onde eles estavam.
— Eu não quero morrer. — Disse Lilian chorando.
— Calma. A gente não vai morrer. Ainda temos muito que viver. — Disse isso e abraçou a esposa.
Na ponta do barco, primeiro pulou Lilian e logo em seguida Armando. Se segurando em um pedaço de madeira que se desprendeu do barco os dois boiavam com a ajuda dos salva vidas infláveis. Viam de longe o barco afundar devagarinho como se acenasse dizendo foi bom o tempo aqui na superfície mas agora preciso descansar. O mar se acalmava à medida que engolia a pequena embarcação a vapor. Quando a proa do barco finalmente desapareceu da vista dos dois, ouviram um helicóptero se aproximando com o cesto salva vidas pendurado.
O barco descansa tranquilamente no fundo do oceano esperando o dia em que o mar vai virar deserto para contar por aí que foi bom ter vivido. Foi bom ver o sol, o vento e os pés gelados nas minhas costas à noite. Não guarda raiva de quem não cuidou de ti. Não guardo raiva, só guardo as lembranças. As boas e as ruins e tudo que aprendi. E se não for por isso que estamos aqui eu já não sei mais de nada. E quem disser que não valeu a pena navegar todos esses anos nesse mar imprevisível e infinito que é viver está mentindo. Viver é incerto, é como o mar a noite e isso é a magia meu irmão! Respirar cada dia querendo navegar mais. Sim, é preciso. Alugue outro barco se for preciso e devolva apenas no final da vida se assim desejar, só não deixe de navegar. Viva tudo que tiver de viver. E termine tudo, resolva tudo. Não deixe nada subentendido, não deixe nada pela metade. Também não deixe de amar. Amar é preciso, viver não é preciso. O amor é a lei, amor sob vontade.
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2018.04.05 07:49 _kokoro_ A depressao se desfez

Hoje, do nada, depois de fumar um c meu namorado, passei a imaginar o que seria necessário para que eu pudesse estar aproveitando o momento, sem aquele sentimento de pesar, agonoa. Eu entendi que o que me afoga é a culpa. A culpa desde criança, por ser gay, por ser preguiçoso, por ter deixado tudo p depois, por ter sido extremamente obediente aos meus pais e ter vivido a neurose deles, sem ter saído com amigos, dormido na casa de conhecidos, saído alguns dias p outra cidade. Nada. A minha vida foi moldada ao redor de uma paixão platônica de adolescente e como isso afetou minha história, quando meus pais encontraram cartas desse menino em uma gaveta. Eu tinha 16 anos.
Daquele momento em diante, depois de um discurso hipócrita dos meus pais, eles me fizeram sentar e escrever uma carta de "fim de contato" com o menino, lembrando que não existia smartphones, tampouco WhatsApp. Foi muito constrangedor. Saber que eles leram desejos de um adolescente, do próprio filho, fantasias sexuais e românticas de cartas que deveriam ser hoje equiparadas às chamadas de vídeo que fazemos com quem gostamos. É triste lembrar disso. A perseguição posterior foi pior, uma extrema preocupação que escondia na verdade a proibição. E como eu já tinha crescido nesse regime do sim sr e sim Sra, de avisar, de dar satisfação, me vi diante da situação de começar a mentir descaradamente, faltar aulas, tentar ter aventuras ou um relacionamento com alguém às "escondidas". Foi nessa época, já com uns 17, que comecei a piorar e não sabia o que era, pq conscientemente eu sabia que não desobedecida meus pais e suprimia a vontade de bater o pé e exigir que me deixassem sair, ter amigos, dormir fora.
Lembro que num churrasco do estágio que fiz em certo órgão público, onde todos os meninos foram dormir na casa de um sujeito. Estávamos mto bêbados e a noite tinha sido legal. Até aí sem depressão naquela noite, pois era um ambiente profissional, então acho que não causava conflito com a obediência aos costumes dos pais.
A partir do momento em que decidimos dormir na casa do sujeito, minha mente já acelerava e começava a produzir aquela sensação que viria a me acompanhar por mais de 9 anos. E era um ciclo. Toda saída eu dificultava pra n ter q combater meus pais. Um dos outros estagiários pegou o telefone e faloi ele com meu pai, "eu trabalho com seu filho, o Sr pode ficar tranquilo.". Porra eu consigo lembrar dos detalhes. Eu já tinha 17, 18 anos nessa época. E tratado como uma criança. Não por preocupação, lembrem-se, mas como forma de proibir. De chantagear até o limite do ser humano.
Estou escrevendo do celular e cansei. Se alguém se intetessar, posso contar mais. É uma história interessante e deprimente. De repente pode fazer vocês repensarem pequenos momentos de suas vidas. A resposta pode ser um diálogo mal resolvido. Enfim.
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2018.02.13 03:27 pedrothegrey O Insignificante

I.
Borges era uma homem desimportante. Bebia constantemente, mas não o suficiente para que seus colegas ou esposa achassem problemático. Fumava quando se encontrava nervoso ou ansioso, excedia os limites de velocidade de quando em vez, e deixava a toalha molhada em cima da cama após o banho. Seus vícios pareciam sob seu controle, a todo tempo.
Era calado, culto, porém deveras alienado. Tratava bem de sua esposa. Trazia, para ela, doces nas datas românticas e jóias sem brilho no Natal. Ela não tinha nenhuma surpresa mas nenhum desagrado sério com Borges. Quando conversava com suas amigas casadas, sobre seus maridos que por vezes eram infiéis, apostavam somas obscenas de dinheiro nos cavalos, se metiam em brigas de rua, e até ameaçavam socos, sentia uma curiosidade mórbida pelo pecado, ao mesmo tempo em que aceitava ser melhor por ter Borges por perto.
Ele nunca fora genial no colégio. Na quinta série, percebeu que quando estudava muitas horas para uma prova, conseguia o mesmo resultado que quando não havia aberto os livros. Conseguiu ingressar em uma universidade, muito embora não fosse a que ele tinha vontade de entrar. Falhou alguns exames, foi aprovado sem grandes honrarias, no meio de tantos outros. Foi efetivado no lugar onde fazia estágio, uma pequena empresa no subúrbio, e na única noite em que saiu com os colegas para o happy hour, conheceu sua mulher. Desposou-a três meses depois, quando tinha 25 anos e um carro popular.
Quando seu pai aposentou-se, o convidou para que conversassem e bebessem algumas cervejas. Borges beijou a sua esposa com os lábios secos e disse adeus, ela disse um adeus afetuoso, embora não tivesse desgrudado o olho da televisão. Ao chegar no sitio de seu pai, Borges se depara com uma mesa, do lado de fora da casa, com uma maleta comprida aberta sobre ela. Seu pai estava sentado ao lado da mesa, limpando a espingarda recém-comprada. Mostrou, orgulhoso, ao filho a compra que havia feito.
— Quer fazer um teste? — perguntou. — É mais fácil do que parece, vou colocar um alvo ali pra você.
Bebeu de um gole o resto da cerveja que estava na lata, e a colocou a 20 metros de Borges. Este, pegou a espingarda com um desajeito quase infantil, posicionou a coronha nos ombros e mirou na latinha. Antes de atirar olhava para o pai, como se dissesse "Tem certeza que essa é uma boa ideia?", e era correspondido por um olhar ansioso e debochado. Tomou coragem, talvez toda a que tinha, e deu o tiro. O barulho machucou seus ouvidos, sentiu o coice poderoso da arma em seus ombros, o cheiro de pólvora queimada, o calor do cano. Era um equipamento bruto, robusto, porém tinha certa dose de beleza, de graça, o suficiente para que Borges pudesse apreciar.
Ao se aproximarem do que se sobrou da lata, Borges ficou espantado com o resultado do tiro. Ele havia obliterado um objeto com o toque de um dedo. Havia naquele momento, para o observador cuidadoso, uma pequena centelha em seu espírito, um brilho no seu olhar, tão sutil que poderia ser confundido com o reflexo da luz. Sutil, efêmero, porém presente.
Dirigiu seu carro cinza para casa, e no caminho sua mente só pensava naquele momento mágico, naquela sensação que nunca havia sentido antes. Ao leitor desavisado, pode-se ter a impressão de que uma paixão se fez presente em sua alma, mas Borges era incapaz de um vício tão eloquente. Era, acima de tudo, uma obsessão fria, muda e nada tinha de viril. Quando chegou em casa, encontrou sua esposa na mesma posição de algumas horas atrás. Após tomar um banho rápido e trocar sua roupa cinza por uma caqui, se deixou cair na cama, mas sem soltar demais o corpo. Se sentiu feliz pela esposa não ter prestado atenção na tolha molhada que estava debaixo de seu pé.
— Meu amor, acho que vou comprar uma arma e caçar. — disse, enquanto seus dedos passeavam, sem cor, pelo rosto da mulher.
Sua esposa moveu os olhos suavemente para o lado e olhou fundo nos seus olhos, e não vira naqueles olhos cinzas, pálidos, um ímpeto para uma ação tão... tão... diferente. Colocou, gentilmente a mão em seu rosto, e também o acariciou levemente. Seus olhares se cruzaram por um período que levaria até Zelda e Scott Fitzgerald ao desconforto. Depois dessa pequena eternidade, ela só podia concluir que ele havia descoberto o leve descontento que tinha por sua previsibilidade, e, como havia lançado essa ideia sem nenhum contexto, achou que o fazia meramente para agradá-la. Seus lábios esboçaram um sorriso delicado e dormiram após o costumeiro beijo de boa noite.
II.
Na semana seguinte, chega em casa com uma maleta comprida, igual a do seu pai. Sua mulher estava fazendo café e quando olhou para o marido, deu um grito e um pulo para trás, quase derrubando o café. Ele mostrou a ela todos os acessórios que havia comprado, ensinou os nomes de cada parte da arma, deu uma breve explicação sobre o funcionamento dela e por fim, deixou-a segurar a arma. Ao falar, parecia haver memorizado toda uma cadeia de informações, na sua voz não havia uma empolgação genuína, era como se estivesse lendo uma revista técnica de tiro.
Sua esposa ouve tudo, mas sua visão adquire um aspecto onírico. Ela se sente confusa e com uma certa náusea de toda a situação. Não só ele havia comprado uma arma — o que ela nunca aprovaria — como ele o havia feito, embora de maneira planejada, nesse ímpeto remotamente (e ela recuava quando sua mente pensava nisso) adolescente. Ele estava no banho e só se deu conta de que não havia ninguém falando quando ouviu o barulho da chaleira. Dormiu numa perturbação a nível espiritual. Todos os finais de semana de Borges eram passados no campo de tiro. Treinou como uma máquina, não vibrava quando acertava na mosca — o que ocorria com surpreendente frequência — nem esbraveja quando errava o alvo. Anotava seus pontos e mostrava para a esposa quando chegava em casa. "Que bom, amor", dizia, sem olhar para o resultado. Borges nunca notou, pois não tirava os olhos do resultado.
Certa vez, estava limpando a espingarda na sala, quando um pombo se equilibrou nos fios do poste. Continuou limpando a arma e montou-a novamente. Se levantou do sofá e viu o pombo estático, pendurado nos fios. Uma estranha força se havia apoderado dele, não mais tinha controle sobre seu corpo. Sem compaixão, sem vileza, atirou no pombo. O barulho ressoou forte na sala de estar, ouviu o grito da esposa que correu para a sala, os vizinhos que gritavam e perguntavam se estava tudo bem. Mas ele não tinha ouvidos para isso, se concentrou no som pesado da bala atingindo o peito da ave, o bater descontrolado de asas na tentativa desesperada de tentar voar, o som seco e desolador da queda do corpo do animal no chão. Todos esses pequenos momentos ecoavam em Borges, enquanto sua esposa tentava explicar a situação para os vizinhos. Borges tinha uma nova (se é que podemos chamar assim) vontade e sua esposa tinha o que conversar na próxima reunião de esposas.
III.
Meses depois. Eram 19h e Borges não havia chegado em casa. Sua mulher não sabia como reagir a essas duas horas de atraso. Ele bateu de carro? Fora assassinado? Parou para beber? Mas tudo isso parecia tão irreal que sua preocupação tinha um gosto quase sobrenatural. Teria Borges absorvido aquele delicado ímpeto transgressor em sua alma? Tinha ele essa capacidade, esse tipo de caráter anárquico? Havia sumido com sua arma e carro, este, fora encontrado abandonado na estrada, ao lado de uma mata que se estendia até o horizonte. Borges havia sido regurgitado pelo subúrbio? Tudo que se sabia era que havia entrado — e era consenso geral de que se havia perdido — no meio da mata. Novamente é enfatizado ao leitor que aquela decisão não fora tomada de ímpeto, no meio do trânsito, com o rádio ligado. Não existia uma paixão que o carregava até a natureza, nem um ódio que o pudesse mover para fora do subúrbio. Não tinha um amor tão expressivo pela mulher para que o impedisse, tampouco era indiferente a ponto de não deixar um pequeno bilhete no carro, que dizia:
Adeus, meu amor. — Borges.
Dormiu no chão nos primeiros dois dias. As formigas, os mosquitos e outros tantos insetos inomináveis se banqueteavam com ele. Depois de uma noite infernal de picadas e mordidas, acordava molhado de orvalho, com os primeiros raios de sol que cortavam entre as copas das árvores. Conseguiu fazer uma pequena cabana de folhas e galhos, e isso o ajudou imensamente. No quarto dia, quando acordou com um pouco menos de dor, pegou o rifle e o carregou, e ficou esperando, na beira de um lago (que havia encontrado no dia anterior) um alvo que pudesse atirar. Mas nada apareceu, nesse dia ou no outro, ou no outro, ou... Seu estoque de comida — alguns enlatados e biscoitos — havia acabado e, além de frutas, nada tinha para se alimentar. Desistiu de tentar caçar e simplesmente se sentou à margem do rio, observando o fluxo da água, ouvindo o farfalhar das folhas, o canto dos pássaros. Entrara num estado de transe insensível, parecia que a vida era constituída somente daquele momento e daquele lugar, mas não sentia nisso uma alegria particular. Apenas aceitava como um fato. Lembrou-se da quinta série, sem nenhuma razão especial.
Seu coração acelera quando ouve o barulho de um galho seco que se quebra, e uma pata que se leva ao chão devagar. Ele sente aquela mesma força invisível que leva seu braço à arma. Engatilha suave e lentamente a espingarda. A capivara mostra seu corpo grande e desajeitado e se inclina para beber água. Do outro lado da margem, Borges, como um animal selvagem, sem vileza, sem piedade, age como se todo o mundo esperasse que ele agisse. Toma uma decisão como se não pudesse tomar outra, uma decisão, que não foi necessariamente irrefletida, mas destituída de toda culpa moral. Não havia outra coisa a se fazer.
Borges aperta o gatilho. Passara dias sem ouvir nada além de grilos e água corrente, e o barulho da explosão foi nuclear. Quase podia sentir a onda de choque que avassalava a paz da mata. Os pássaros voaram imediatamente e o som de suas asas ecoou junto da explosão por alguns segundos. A capivara fora atingida no coração, seus olhos se arregalaram e ela caiu para o lado, tesa, nas margens do lago. Borges arrastou o animal até a cabana, cortou sua barriga e retirou suas entranhas. Se sujou da cabeça aos pés, não tinha nenhuma noção do que estava fazendo. Retirou um pedaço de carne do animal, com um pouco de couro no exterior e o colocou na fogueira, que demorou algumas horas para que conseguisse acender. Fez isso da mesma maneira que praticava tiro, fazia anotações mentais dos movimentos que foram eficazes e dos que não foram, etc. Comeu a carne dura e sem gosto do animal. Mas isso não importava, pois não o havia matado pela carne, nem tinha alguma satisfação especial na comida.
A noite caiu e, enquanto a fogueira crepitava em seus suspiros finais, o calor das brasas aquecia a cabana de Borges. Se deitou e dormiu um sono sem sonhos. No meio da noite, ouviu um barulho ao longe, o som de uma lembrança distante, um som caótico e bem sutil, quase delicado. Se levantou sem fazer barulho e saiu da cabana, com a arma em mãos. Estranhas luzes vinham em sua direção, e o barulho ficava cada vez mais alto.
Como um animal encurralado, correu para a beira do lago, onde a lua talvez pudesse iluminar os agressores, e onde podia ter um alvo claro. As luzes continuavam o seguindo quando chegou no lago. Um som de algo desesperado se ergue no meio do caos, um som agudo, suave, gracioso, mas tenso e trêmulo. Borges tropeça e cai no lago, e uma estranha criatura pula em sua direção, emitindo esse som tão estranho. Por puro reflexo evolucional, instinto de autopreservação, Borges atira na criatura.
O clarão da explosão revela o rosto de sua esposa. Que cai nas margens do lago, ao lado de Borges. Seu rosto que, outrora, exibia uma vida pálida e fria, agora tinha um aspecto vivo e aterrorizado. O sangue da mulher corre pelo rio, fazendo uma mancha que tem um brilho macabro sob a luz da lua. Borges retoma sua consciência anterior, daquele pequeno subúrbio e das regras daquele mundo. As luzes que o seguiam param nas margens, nada mais são que policiais à sua procura, provavelmente liderados pela esposa na busca.
Borges sente de novo a força incontrolável e aponta a arma para os policiais. Mas algo novo surge sob a luz da lua. Borges sente. Sente algo, sua alma é tempestade, ímpeto, sua filosofia, o martelo, seu deus, ele mesmo e a sua vontade é a da lua. Coloca o cano da espingarda na boca e aperta o gatilho. Sua nuca explode, deixando no rio uma mancha de sangue, que finalmente, faz companhia à esposa.
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